UM PIANO NA SELVA

COLETIVA

11/MAR — 13/MAI 2017

Horário de funcionamento:
Seg a Sex: 10h às 18:30h
Sáb: 10h às 14h

Registro fotográfico: Eduardo Eckenfels

UM PIANO NA SELVA

por Germano Dushá

Em determinado momento do filme Fitzcarraldo de Werner Herzog, o protagonista e sua tripulação, que navegavam pelas margens de um rio onde vivia uma tribo indígena isolada, escutam sons de tambores e cantos surgirem da selva densa que os cercava. Logo encontram um guarda-chuva sem dono sendo levado pela correnteza. Entendem o sinal.

Quando se intensifica o barulho, enquanto os demais se armam com espingardas e dinamites, Fitzcarraldo sobe em cima do barco e coloca um gramofone para tocar uma ópera, respondendo as provocações externas. Ambas as músicas se misturam numa só toada, a qual soma-se ainda os barulhos da fauna e flora.

Trata-se de um dos pontos altos do encontro promovido pelo delírio de um alemão que almeja erguer uma casa de ópera em uma remota cidade no alto Amazonas. Para financiar o projeto, desvairado em cada gesto, esgueira-se nos meandros dos barões de borracha e no uso de mão de obra indígena, arriscando-se à tentativa limite de atravessar seu barco por cima de uma montanha.

A partir de temas, narrativas e experimentações estéticas comuns à obra de Herzog, esta exposição gravita em torno da imaginação de uma figura que possivelmente pode lhe servir de ícone: um piano repousando em meio a mata fechada.

Nesta imagem-síntese há, primeiro, o sonho, a ambição, o planejamento e a operação conduzidos por noções de progresso e civilização ligadas a um pensamento que, em regra, articula atropelamentos e assassinatos a qualquer elemento que não acompanhe o seu ritmo de construção.

Depois, podemos refletir a respeito de desdobramentos literários, filosóficos e antropológicos de uma ideia fora do lugar. Do contato do erudito com o selvagem; da extração com a floresta; dos meios acadêmicos com o esquentar dos corpos; do efêmero com o perene; do empreendimento com o campo aberto.

Nesse sentido, a mostra reúne pesquisas e produções heterogêneas que buscam ventilar a potência do encontro; assume a complexidade da reunião; e mira a capacidade de produzir conexões entre distintas formas de pensar, num sistema de saberes interdisciplinar. Inclina-se assim sobre os absurdos e assombros concentrados no interior de conflitos e convergências; e sobre os múltiplos

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