TORSO PEDRA

        EXPOSIÇÃO COLETIVA – ESPAÇO C.A.M.A.

21 AGO 2021

Horário de funcionamento:

Ter a Sex: 10h às 19h
Sáb: 11h às 18h

Registro fotográfico: Ana Pigosso

 

TORSO PEDRA

O Espaço C.A.M.A. (São Paulo) inaugura Torso Pedra, coletiva dos artistas Alexandre Brandão, Eustáquio Neves, Luana Vitra e Manoela Medeiros. A exposição, organizada pelas galerias Periscópio (Belo Horizonte), Kubikgallery (Porto, Portugal), Casanova (São Paulo) e Cavalo (Rio de Janeiro), reúne obras em diferentes mídias que relacionam elementos do corpo humano com substâncias sólidas e formações minerais. Essas aproximações entre matéria viva e inanimada refletem sobre a fragmentação do indivíduo, perenidade e vínculos com a natureza.

O torso é a parte central do corpo de diversos animais, incluindo o ser humano. Um motivo frequente na história da arte, essas representações escultóricas são muitas vezes produto de ruínas; figuras decapitadas e desmembradas pelo tempo. Foneticamente porém a palavra torso é similar a conjugação do verbo torcer. O título portanto pode soar oralmente como ‘espremer um elemento rígido’ ou simbolicamente ‘encarar situação adversa’ como na expressão ‘tirar leite de pedra’.

Em suas pesquisas, Manoela Medeiros (Rio de Janeiro, 1991) utiliza diferentes expressões, como escultura, pintura e instalação, que dialogam com a geografia dos espaços, associando pele, tempo e arquitetura. Assim, questiona sua percepção sobre o ambiente através das relações entre a linguagem e destroços. A Kubikgallery traz para a exposição trabalhos inéditos da artista que começaram a ser desenvolvidos entre 2017 e 2018 durante sua residência no espaço Pivô. Nestas peças, Manoela desenvolveu uma técnica de fazer escultura através do enterramento do desenho, que foram retomados e fazem parte do imaginário da pesquisa da artista como elementos naturais, entidades, paisagens e objetos arqueológicos.

Partindo da ideia de desmaterialização e reconstrução de objetos, as obras recentes de Alexandre Brandão (Belo Horizonte, 1979) propõem um embaralhamento dos processos da natureza e da cultura, abordados pelo interesse na fenomenologia das matérias primas. Representado pela galeria Casanova, o artista expõe “Passante”, uma série de desenhos realizada com a tradicional técnica de “tinta invisível”, onde os tecidos são impregnados de suco de limão e marcados com um ferro de passar, as obras apresentam um conjunto de símbolos não codificados ou uma escrita ainda em formação, capazes de remeterem tanto a um universo simbólico minimalista quanto à grafia de certas culturas ancestrais.

Já nas esculturas “Meio-tempo”, constituídas por vasos feitos por uma mistura de terra e cimento, são distribuídos nove recipientes côncavos e circulares produzidas a partir de um conjunto de tigelas de metal de tamanhos crescentes, dão ao conjunto a impressão de instantes distintos solidificados no tempo. E por fim, “Pedra a pedra” é composta por esculturas em argila expandida ligadas por fios de aço, como contas que compõem uma rede de linhas entrelaçadas. Sua estrutura rizomática obedece a uma dinâmica fluida e sua aparência, ligada à essa configuração orgânica da trama, faz a obra habitar uma zona de sombra entre o artificial e o natural.

Eustáquio Neves (Juatuba, MG, 1955) é o convidado pela galeria carioca Cavalo. O artista constrói suas obras por meio de processos de experimentação com a linguagem da fotografia, utilizando camadas de sobreposições de imagens e procedimentos químicos. Suas narrativas discutem a sociedade e o lugar histórico da população negra como protagonista de suas práticas culturais, conferindo ao artista destaque dentro e fora do país. Para essa coletiva, serão apresentadas obras de duas séries emblemáticas da carreira de Eustáquio.

A primeira, “Objetilização do Corpo” (Juatuba, 1999), tem como tema o uso da mulher pelas mídias, a sexualização através da venda de produtos, a “banalização do corpo”, segundo o artista. A essa estética com que estamos muito familiarizados (dos comerciais de cerveja, das revistas masculinas) Eustáquio opõe outra, cheia de ruído, etérea. A nudez feminina é apresentada como natureza morta, não vende, não oferta, não fragiliza – quase nem entra em questão. Na segunda, “Máscara de Punição” (2002-2003), as imagens se referem às mascaras de metal utilizadas como instrumentos de punição e tortura durante o período escravocrata. O fotógrafo utilizou um antigo retrato da sua mãe e realizou diversas intervenções físicas e químicas, incluindo a sobreposição da imagem da máscara de metal.

A galeria Periscópio apresenta obras da artista Luana Vitra (Contagem, 1995) que, em sua pesquisa , profana a indústria com a terra, em busca da sobrevivência e da cura das paisagens que habita. Entende seu corpo como paisagem inicial, e sua ação como micropolítica na lida com a materialidade que seu trabalho evoca. A própria imagem do “desaparecimento” da serra é o que constitui a série de desenhos “Sumiço no sopro ou sulco do chão” (2020) onde a artista lida com as mudanças das paisagens, reconhecendo aí duas modalidades: artificial ou natural.

Vitra deixa pistas de que as paisagens com as quais ela lida não se resumem àquelas apreciadas por um viajante ou turista em seus momentos de lazer. Embora essas possam até ressoar em seus trabalhos, as paisagens da artista são, sobretudo, móveis e instáveis, ou como ela mesma sublinha: “lugares intermediários entre a indústria e a natureza”. Dessa forma, podem ser “encontradas” inclusive nos objetos como nas obras “Lata para transporte da memória de paisagens desaparecidas” (2018), “Lata para transporte de paisagens abertas para exploração estrangeira”, “Lata para transporte de paisagens ricas em minério de ferro” e “Lata para transporte de paisagens contrastadas”. Nessas, a combinação de linguagens, como o desenho e a escultura, dá corpo às peças que demonstram a maneira como a artista abarca os conflitos e as memórias em torno de lugares em que suas paisagens são constantemente “transportadas”.

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