SUBLIME ORDINÁRIO

        EXPOSIÇÃO COLETIVA – ESPAÇO C.A.M.A.

05 FEV – 19 MAR 2022

Coletiva proposta por Artur Lescher para o Espaço C.A.M.A., que reúne obras de 10 artistas que buscam o extraordinário em objetos e materiais comuns.

Tecidos desfiados se tornam padrões geométricos, rebocos e retalhos de parede são expostos, livros se tornam motivos principais do debate artístico entre outros materiais familiares que são adequados de forma não natural à sua origem.

Artistas: Cao Guimarães, Bernardo Glogowski, Fábia Schnoor, Fernando Laszlo, Ignacio Gatica, Lucas Dupin, Manoela Medeiros, Marina Weffort, Martin Derner e Sofia Caesar.

Registro fotográfico: Ana Pigosso

 

Per via di levare

Atuar como curador a partir da perspectiva de artista apresenta uma oportunidade de repensar a prática curatorial e encontrar as afinidades e correspondências entre o meu trabalho com a prática destes artistas. Talvez esse seja um exercício de sublimação – onde nos é dado ver no outro nossas próprias projeções.

Sendo assim esse recorte sempre estará de algum modo contaminado por este olhar particular. Mas tenho a esperança que mesmo lidando com este aspecto inexorável ainda assim a experiência possa servir para muitos.

A operação consiste em observar, resgatar memórias e retirar as distrações e acidentes que nos afastam do contato. A tarefa é basicamente escutar os pensamento e as ideias que residem em todas as coisas, ou seja, identificar aquilo que esta na origem e na superfície de todos os trabalhos aqui expostos.

Partindo da distinção feita por Leonardo da Vinci entre a operação da pintura – per via di porre, por meio de depositar – em oposição a da escultura – per via di levare – os trabalhos aqui expostos tem um proximidade estreita com o movimento do escultor (no sentido tradicional da palavra) de extrair do cerne da matéria seus significados constitutivos. O trabalho é basicamente retirar o excesso e deixar ver aquilo que sempre esteve ali presente, mesmo que em um estado de absência.

Acredito que a tarefa do curador basicamente é nomear – mesmo que por um breve instante. Nomear é o primeiro passo para criação de uma identidade. Por outro lado uma curadoria é também um modo de produzir um texto, um texto público, construído pelo enunciado e a pela leitura de muitos. Assim como as palavras estes trabalhos expostos estabelecem um campo gravitacional, e tem a capacidade de instaurar novas imagens e projetar realidades.

Nesta mostra reunimos artistas que trabalham com mínimos recursos com materiais ordinários para nos surpreender com imagens sublimes. O modo de fazer, comum a todos, é a subtração, a retirada de matéria – uma construção negativa, um desfazer até o limite da ruína, e é precisamente neste limite que é possível recomeçar.

Artur Lescher

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