NO MEU SONHO, EU POSSO SER QUEM EU QUISER

        JESS VIEIRA

11 JUN – 16 JUL 2022

Um sonho que vai além do produzido durante o sono: é também aquele sonho que você tem enquanto está desperto, uma continuação de quando visitava o inconsciente. Assim Jess Vieira resume o modo como ela concebe o “sonhar”, que permeia as obras a serem apresentadas por ela.

Um conjunto de telas de grande dimensão e outras pequenas, às quais ela se refere como “miniuniversos, compõe a mostra No meu sonho, eu posso ser quem eu quiser, na qual expõe também móbiles feitos com tecido, peixes costurados a mão e miçangas.

A curadora Lorraine Mendes ressalta que o trabalho de Jess rompe com certas expectativas que parecem vir se cristalizando em torno de obras concebidas por artistas negros. Acredito que as pinturas dela ocupam um lugar da delicadeza e de um cuidado de si para si que acaba chegando em todas nós de uma determinada forma a depender de nossas experiências. Além da generosidade do convite para o outro, Jess produz a partir de um lugar que é muito negado ou que não se espera que uma pintura por uma mulher negra possa produzir, frisa.

Registro fotográfico: Eduardo Eckenfels

meu corpo
conta
por si só
histórias
além de mim.

Em No meu sonho, eu posso ser quem eu quiser, Jess Vieira projeta o seu próprio “eu” que, indissociável do todo, provoca um encontro com o “eu” de cada um de nós que nos colocamos diante de sua obra. Ao olhar os seus trabalhos e adentrar nos seus sonhos, é dada a cada um de nós a oportunidade de se reconhecer.

Mas, atenção: para se reconhecer é preciso olhar com os olhos de perceber.

Em cada detalhe, camada de tinta, gesto, cor, figuração e forma que esvanece, a artista nos deixa ver e nos convida a ouvir e olhar os sussurros, as histórias e sonhos que guarda. Guarda, oferece e acolhe.

Hoje vou pintar a benção da esperança, diz em um de seus inúmeros escritos.

Suas pinturas são um registro de um diário-desejo-prece de um corpo negro que busca caminhos para fluir em vida. Assim como a água encontra a terra, faz o barro que molda a origem de tudo, Jess Vieira molda mundos de sonhos e possibilidades.

Possibilidades que extrapolam aquilo que se espera, ou se define historicamente para uma mulher negra em uma sociedade que nos enxerga e tenta encerrar nossas existências a partir das lentes brancocêntricas

As artes geram um regime de visibilidade que organiza, dá nome e ordem à realidade. Com a delicadeza de seus gestos, escritos e sonhos, Jess nos mostra um caminho que escapa, inclusive, daquilo que se deseja que um corpo e uma subjetividade negra retrate em seu trabalho artístico.

bell hooks em Olhares Negros: raça e representação aponta como tarefa fundamental para pensadores, intelectuais e críticos negros a luta para romper com os modos hegemônicos e brancocêntricos de pensar, ver e ser que comprometem nossa capacidade de nos imaginarmos e inventarmos em perspectivas libertadoras. Dessa maneira, segundo a autora, há de se transformar a imagem. Olhar para nós mesmos a partir de outras visões e miradas. Se um corpo, segundo a poeta Lubi Prates, é um lugar de fala, transformar a imagem pode ser ouvir esse corpo.

O gesto de generosidade do trabalho de Jess Vieira está em deslocar e enunciar perspectivas. Em um regime de delicadeza, de sonho e encontro com o sentir a artista abraça e nos convida a mirar a complexidade de que somos feitos: água, terra, vento, onda, mar e afeto.

Lorraine Mendes

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