Megazord codinome Esperança

        RANDOLPHO LAMONIER

06 MAI – 12 JUN 2021

Horário de funcionamento:
Seg a Sex: 12h às 19h
Sáb: 11h às 17h

Sala de Exposições do Espaço C.A.M.A., em São Paulo.

Alameda Lorena 1257, casa 4, Jardim Paulista, São Paulo/SP.

Registro fotográfico: Ana Pigosso

 

rANDOLPHO LAMONIER E A VERTIGEM DO “AGORA”

Traduzir a experiência do presente é uma tarefa desafiadora, e por isso mesmo pode ser muito instigante. Os percursos dessa busca, para o artista mineiro Randolpho Lamonier, são algumas de suas principais motivações. Ele encontra no jogo com as complexidades e com as ausências de sentido reverberadas no panorama contemporâneo um vórtice que impulsiona os seus trabalhos. É nesse corpo a corpo com o cotidiano, o qual muitas vezes nos escapa, que ele chega à sua mais recente exposição, Megazord codinome Esperança, a ser inaugurada no dia 6 de maio, no Espaço Cama, em São Paulo.

As obras apontam para uma continuidade em suas pesquisas, especificamente no uso de materiais têxteis, mas também incorporam cada vez mais outros elementos, como o plástico, objetos de uso pessoal ou coletados no ambiente urbano. As cores e as formas já encontradas por ele são, assim, reapropriadas de modo que elas conservam suas propriedades e colocam todo o conjunto numa espécie de polifonia proposital – não necessariamente harmônica.

Eu me interesso muito em alcançar os limites da linguagem a da forma. Se eu estou fazendo um trabalho bidimensional, por exemplo, eu posso lidar com aquilo como se fosse, na verdade, um som. Há uma tentativa de transformar uma imagem em algo sonoro, capaz de provocar uma sensação próxima da música, diz Lamonier.

E de quais “composições sonoras” as obras de Megazord codinome Esperança se aproximariam, então? Lamonier convida o público a sentir os mais diversos ritmos e pulsações que ali se projetam. Desde as mais dramáticas, irônicas ou incômodas sem deixar de abrir uma brecha para a esperança, o que ele identifica principalmente na vibração das cores.

Mas, de fato, ele reconhece que suas criações se tornaram um pouco mais “pesadas” do que havia planejado. Lamonier atribui isso a um choque desde o seu retorno ao Brasil em janeiro de 2021, após um ano em Paris, onde participou de residência artística na Cité Internationale des Arts, a convite da artista Rosa Maria Unda Souki. Além de uma grande amiga, Souki é sua parceira de trabalho. Em 2019, ela emprestou a voz para um filme de Lamonier e Victor Galvão que integrou a instalação “Brasil 2019 – Partitura para fogo e metais pesados”, exibido por Lamonier na 15ª Bienal de Arte Contemporânea de Lyon.

De volta a Belo Horizonte, após sua segunda temporada na França, o artista precisou não só lidar com uma avalanche de estímulos, mas também com os impactos, as mudanças, os conflitos provocados por mais de um ano de pandemia na paisagem da cidade onde morava, e, num contexto mais amplo, em todo o país, provocando um clima de intensa instabilidade.

A princípio eu estava pensando tudo de um jeito mais leve, mais bem-humorado. Apesar de eu ter ficado muito feliz de voltar ao Brasil e perceber como era importante estar aqui, o trabalho ganhou um peso brutal porque eu não estava mais conseguindo ver espaço nenhum para algo mais suave ou pouco engajado, conta Lamonier.

Megazord codinome Esperança será inaugurada na mesma semana em que se encerra a coletiva “Sobre os ombros de gigantes”, na galeria Nara Roesler, da qual Lamonier também participa, na capital paulista. Após ser exibida em São Paulo, essa mostra também será apresentada na filial da Nara Roesler em Nova York, em junho, para a qual Lamonier está preparando um trabalho inédito. Atualmente também em Nova York, ele também está com outra mostra em cartaz na galeria Fort Gansevoort, que, além de ser sua primeira individual nos Estados Unidos, marca o início de uma parceria com a galeria estadunidense, que a partir de agora vai representá-lo nesse país.

Uma das obras expostas na Fort Gansevoort e que reflete o tom de sua nova lavra é “O gabinete do Capitão Cloroquina amanheceu todo pixado”. O enfrentamento dos discursos políticos segue, assim, costurado nos seus estandartes, tanto nos que viajaram para o exterior quanto nos mais recentes a serem vistos no Espaço Cama. Dessa forma, Lamonier dispara contra as questões latentes no presente, como as violências de Estado escancaradas no Brasil, mesclando essas abordagens ao olhar para o universo íntimo e para sua própria relação com a cidade, em seus trabalhos.

Aquela exposição de Nova York acabou funcionando como um aquecimento para esta que está sendo aberta agora no Espaço Cama. Desde o início do ano, eu não noto muitas mudanças no contexto em que estou inserido, e em alguns aspectos eu acho que o cenário até piorou. E eu vejo que meu trabalho tem muito a ver com o gênero da crônica, no sentido de que ele lida muito com a noção de experiência e com o que eu sinto a necessidade de falar num dado momento, conclui Lamonier.

Seu próprio método de trabalho incorpora isso. O artista relata que raramente leva uma série de obras de uma cidade a outra sem que aquela passe por alguma alteração. Na Bienal de Lyon, até poucos dias antes da abertura eu estava fazendo os últimos ajustes. Antes eu me incomodava um pouco com isso, ficava me perguntando se não estava me excedendo. Mas agora eu entendo que não, isso faz parte do meu processo. Quando eu carrego o trabalho de um lugar para outro, ele muda porque passa a entrar em relação com outro ambiente em que passa a habitar, observa.

Os trabalhos de Lamonier se constituem, assim, num processo de escuta, que ele entende como um “exercício de olhar para as coisas como se fosse pela primeira vez”. Isso o oferece possibilidades de dialogar com o imprevisível e o desconhecido, deixando-se guiar principalmente pela intuição.

Eu me permito fazer certas coisas que para algumas pessoas que olham de fora pode parecer uma loucura e até uma irresponsabilidade, mas eu banco a proposta de chegar no lugar com apenas uma maleta e fazer uma transa com o lugar a partir dos elementos que eu levo e com outros que eu posso encontrar ali, finaliza.

Por Carlos Andrei Siquara

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