Lucas
DUPIN

1985 — Belo Horizonte
Vive e trabalha em Belo Horizonte

Mestre (2012) e Bacharel (2008) em Artes Visuais pela UFMG, Lucas Dupin já participou de exposições e residências artísticas no Brasil e no exterior. A maior constante em sua produção está na capacidade de diálogo com os contextos em que trabalha, embora se volte com frequência para observação atenta da transitoriedade presente no cotidiano. Sem se ater à materiais, linguagens e modos de trabalhar específicos, busca dentro do seu universo de investigação realizar trabalhos em que partes são capazes de acessar um todo. Dupin já foi premiado em diferentes ocasiões como, por exemplo, o Prêmio Arte Contemporânea da FUNARTE (2015), 6º Bolsa Pampulha (2016), Art Weekend SP (2018), OCA/OEI (2018), FAAP (2017) FUNDAJ (2015) e, em anos anteriores, destaca-se o 2º Prêmio Energias na Arte (2010) no Instituto Tomie Ohtake – SP, no qual recebeu a primeira colocação.

 

Vive e trabalha em São Paulo e Belo Horizonte. Representado pelas galerias Lume (SP) e Periscópio (MG).

A PARTE PELO TODO

Presumivelmente, as relações que se articulam entre partes (pedaços incompletos, residuais ou à espera) parecem sempre submetidas às tarefas de recompor, corresponder e reiterar um todo, o qual estabeleceria o sentido último de seus componentes. Sob esta lógica, os fragmentos só alcançam significação quando integrados, insuficientes em si e em sua dimensão desconexa. Nossa experiência habitual parece reforçar o que aqui se considera, naturalizando um olhar que torna-se cada vez mais operativo no sentido da busca de um todo imediato e compreensível, desatento aos detalhes e implicações do que se vê, olhar acelerado incapaz de deter-se também naquilo que se esconde no que se vê, resistente à poesia que o cotidiano pode oferecer na cadência de suas delicadezas insuspeitas. Por exemplo: é como se não fosse um acontecimento extraordinário que certas gramíneas, a despeito das pedras e do asfalto, insistam em brotar por entre as frestas que pisamos na rua, sem mesmo notar que cultura e natureza se confundem aí, no chão. 

 

Pois é justamente ao “rés-do-chão”, termo que aliás deu título à última exposição individual do artista em São Paulo, um espaço de muito interesse para Lucas Dupin, que também percebe aí, nessa zona de invisibilidade, uma força vital e discreta. Esta perspectiva o aproxima do poeta Manoel de Barros, dedicado à natureza dos brejos de sua infância: “é um olhar para o ser menor, para o insignificante, que eu nasci tendo… Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão antes que das coisas celestiais”. Em “Jardins Suspensos”, Lucas Dupin se apropria de fragmentos de calçadas portuguesas para reconfigurar a maravilha da antiguidade, somente imaginada, sob uma escala reduzida e com materiais cotidianos. Cultiva aí, no espaço expositivo, em meio a pedras portuguesas e cimento, pequenas plantas e musgos que, suspensos, convidam a se acercar com olhar mais detido nestas cenas aparentemente simplórias. Olhar para o chão, investigar suas pequenezas, desacelerar a percepção e trazê-la a uma escala afetiva, promover o nivelamento a partir das insignificâncias do chão, talvez seja o convite em muitas das obras que o artista Lucas Dupin reúne em sua exposição “A parte pelo todo”, na Galeria Periscópio. Com trajetória consistente nos últimos 11 anos, tendo participado de importantes exposições, programas de residência artística e premiações pelo mundo, esta exposição individual do artista em Belo Horizonte, sua cidade natal, é uma ocasião oportuna para uma visada abrangente sobre sua produção, já que convivem na exposição obras desde o começo da carreira até projetos mais recentes e trabalhos inéditos.    

 

Na série “Equivalências”, o artista registra a ação de substituir uma das pedras do chão de calçada portuguesa por um pedaço de carne de mesmo formato; em outra ação da série, cobre a pedra por inteiro com folha de ouro para em seguida devolvê-la a seu lugar original. Nessas fotoperformances, Lucas Dupin opera sob uma economia de recursos ao mesmo tempo reduzida e precisa, para por meio de um leve gesto mobilizar e manipular heranças e cargas simbólicas ligadas ao passado colonial e às condições sociais dos centros urbanos brasileiros. O deslocamento delicado do olhar para este elemento impreciso que adere à cena, ansioso em sua diferença e materialidade enigmática, são bastante provocativos quando pensados sob a perspectiva invertida do título da exposição oferece: tomar a parte pelo todo, assumir o fragmento em sua singularidade e diferença. Estas pedras, delicadamente retificadas pelo artista, são da delicadeza insuportável a que a epígrafe deste ensaio descreve, parecem fazer de sua materialidade uma fabulação, feita da matéria dos sonhos e das histórias que não querem ser esquecidas.       

 

Ainda é do chão que possivelmente o artista tenha recolhido cigarros e estalinhos para suas séries de aquarelas. Desde 2010 Lucas Dupin retrata “bitucas de cigarro” em escala 1:1, algumas delas capazes de expressar tanto caráter, mesmo em sua representação realista, que nos fariam supor a boca, ou o hálito de quem as fumou e que se acrescentou ao cheiro da fumaça, como imaginou Marcel Duchamp sobre o inframince: um aguçamento intenso da percepção frente sutilezas quase imperceptíveis. O detalhamento com que cada bituca é pintada deixa evidente que o artista concede a cada exemplar a dignidade de suas marcas expressivas únicas, catalogando constantemente, até hoje, a diversidade múltipla das bitucas sem, no entanto, mirar nenhuma totalidade, ao contrário do que um procedimento assim, beirando práticas científicas, poderia pretender. Com dedicação semelhante, mas agora ampliando a escala do olhar, Lucas Dupin elege por tema de suas aquarelas em grande formato os estalinhos de festas juninas, que se deformam com a explosão da pólvora que guardam. Em ambos os trabalhos, o tratamento dado às escalas quer fazer ver a parte fora do todo, ver assim a parte como todo para revelar um microcosmos. Segundo o próprio artista, “um ponto forte de diferença entre as bitucas e os estalinhos situa-se justamente na relação de escala e de referente. Enquanto no primeiro o referente é bastante óbvio, diria que no segundo este talvez seja bastante obtuso e escorregadio uma vez que a escala ampliada e o absurdo do referente, algo que raramente as pessoas olham, geram um estranhamento para quem vê, ficando o jogo entre representação e abstração”. 

 

A “Biblioteca por vir” é um trabalho bastante representativo do interesse fundamental do artista por livros, escrituras imagéticas e narrativas. Lucas Dupin dedicou uma boa parte de sua produção ao universo dos livros, investigando desde sua materialidade objetual, também de delicadeza insuportável, lembrando novamente da epígrafe, agora em contato com a frase tão celebrada do poeta Stéphane Mallarmé – “livros são objetos espirituais” -, até sua condição simbólica de artefatos culturais, depositários da memória ancestral e imaginação humanas. A relação que os livros estabelecem com o mundo guardam a poesia e as ambivalências que reconhecemos na inversão vetorial que o título propõe, “a parte pelo todo”, e que assim requalifica nosso olhar. Poderíamos exercitar a dúvida frente às infinitas possibilidades de se encadernar o mundo pela linguagem, mas esbarrarmos também na realidade infinita que os próprios livros são capazes de criar, por si mesmos. Na performance “Livro Infinito” (uma entre outras referências ao escritor francês Maurice Blanchot), Lucas Dupin vai encadernando jornais em uma mesa até que a pilha se avolume e termine por firmar uma verdadeira coluna até o teto da galeria. Da consistência quase imaterial das páginas que vão se acumulando aos poucos, fazendo surgir o livro infinito, o artista ergue em escala real uma espécie de marco, estela ilegível, já que a leitura do conteúdo escrito do livro fica impedida, mas também um eloquente sustentáculo ficcional do espaço arquitetônico. 

 

É, portanto, desde este “partido” em que o artista nos localiza que podemos ver também a imagem de um barco que navega por dentro da boca em “Pequenas Navegações”, trabalho mais antigo da exposição, de 2008, e “Biblioteca por vir”, recentemente concluído em 2019, em cujas prateleiras os livros exibem presença material e inacessível, ao mesmo tempo. Ao invés de oferecer a lombada de identificação, como se esperaria numa biblioteca, os livros estão aí invertidos e é mesmo nesse espaço de silêncio em que se fecham suas páginas que o artista desenha ramos de plantas por entre constelações e marcas feitas com pólvora. “A parte pelo todo”, exposição de Lucas Dupin na Galeria Perisópio, instiga o olhar a uma condição metonímica que, de acordo com a origem etimológica da palavra, deseja ir além dos nomes, mudá-los, ultrapassá-los, inaugurar neles novas possibilidades semânticas a partir de sua qualidade fragmentar: vida brotando ao nível do chão, esquecida por entre pedras portuguesas, estalinhos que celebraram festas juninas, bitucas de cigarro, carne, ouro, memórias e narrativas partilhadas. 

 

 Por Júlio Martins 

 

Residências:

 

Reisdência Artística Kaaysá | Boiçucanga – SP | 2019

Residência Pivô Pesquisa | Pivô | São Paulo – SP | 2019

Residência Artística Internacional OCA | Casa da Cultura

da América Latina (UnB) e OEI | Brasília – DF | Período:

Setembro a Outubro | 2018

Residência Artística FAAP | São Paulo, SP

Período: Outubro a Dezembro | 2017

Residência Artística 6º Bolsa Pampulha | Belo Horizonte, MG

Período: Maio a Outubro | 2016

Residência Artística FUNDAJ | Recife, Bezerros, PE

Período: Fevereiro a Maio | 2015

Residência Artística no espaço Filament 14 do Magdalen

Road Studios em Oxford | Período: Junho a Agosto | 2014

Residência Artística no The Banff Centre – Canadá

Período: Dezembro a Janeiro | 2011

Residência Artísitica na Ecovila de Terra UNA

Período: Fevereiro | 2010

Residência Artística KAZA VAZIA 8 | Belo Horizonte, MG

Período: Janeiro | 2009

Residência Artística KAZA VAZIA 6 | FAOP, Ouro Preto, MG

Principais exposições:

 

Individuais:

 

A parte pelo todo | Galeria Periscópio | Belo Horizonte –

MG| 2019

Rés do chão | Galeria Lume | São Paulo – SP| 2018

Tempo-revés | Galeria Mario Schenberg – Funarte

São Paulo – SP | 2017

Entre relevos | Galeria de Arte GTO – Sesc Palladium

Belo Horizonte – MG | 2015

Entre relevos | Galeria Massangana – FUNDAJ

Recife – PE | 2015

The space of literature | Oxford Central Library

Oxford – Reino Unido | 2014

Uma biblioteca para Cruz-Diez | Biblioteca FCH – FUMEC

Belo Horizonte – MG | 2013

Alfarrábios | Galeria de arte Paulo Campos Guimarães

Belo Horizonte | 2010

 

Coletivas:

 

. 2019

Triangular: arte deste século – Aquisições

recentes para o acervo da Casa da Cultura da

América Latina da Universidade de Brasília |

Curadoria: Ana Avelar e Gisele Lima | Casa

Niemeyer | Brasília – DF

 

Circuito Polímatas | Curadoria: Maria do Carmo

de Freitas Veneroso, Marília Andrés Ribeiro,

Pedro Veneroso e Tania Araújo | Reitoria –

UFMG | Belo Horizonte – MG

 

Processos em trânsito: livro de artista

Curadoria de Ines Linke e Susana Sobral | Museu

de arte da Bahia | Salvador – BA

 

. 2018

Olhar Instântaneo | Galeria Periscópio | Belo

Horizonte – MG

 

Processos em trânsito: livro de artista

Curadoria de Sobral Centeno, Daniela Steele

e Ines Linke | Edifício dos Paços do Concelho

Matosinhos + Bienal de Ceveira | Portugal

 

. 2017

Quando nós estamos? O tempo e o prêmio EDP

nas artes. | Núcleo de Pesquisa e Curadoria |

Instituto Tomie Ohtake | São Paulo – SP

 

. 2016

6º Bolsa Pampulha | Curadoria: Cauê Alves

Museu de Arte da Pampulha | Belo Horizonte –

MG

 

Festival Camelo de Arte Contemporânea

Galpão Paraíso | Belo Horizonte – MG

 

. 2015

6º Salão dos artistas sem galeria | Org. Mapa

das Artes | Galeria Sancovsky e Zipper Galeria

São Paulo – SP | Galeria Orlando Lemos – Belo

Horizonte – MG

 

. 2014

Impressões & Contaminações | Galeria Escola

Guignard – CEMIG | Belo Horizonte – MG

 

. 2013

Soma não-zero | Phosphorus | Curadoria: Maria Montero e

Jaqueline Martins | São Paulo – SP

 

Impressões & Contaminações II | Galeria Escola Guignard |

Belo Horizonte – MG

 

. 2012

Dona Izabel e outros contemporâneos | SESC Palladium |

Curadoria: Jorge Cabrera | Belo Horizonte – MG

 

Impressões & Contaminações | Galeria Escola Guignard |

Belo Horizonte – MG

 

. 2011

Sismógrafo | Palácio das Artes | Curadoria: Jacopo Criveli

Visconti | Belo Horizonte – MG

 

The armory Show | Galeria Mendes Wood | New York |EUA

Wabi-Sabi | Galeria Mendes Wood Curadoria: Thereza

Farkas | São Paulo – SP

 

Open Studio | Studio 12 – Glyde Hall |The Banff Centre

Banff | Canadá

 

. 2010

Disseminação V | Mostra de vídeos no 104 Organização

Renato Gaia | Belo Horizonte – MG

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