JUSTIFICATIVA PARA QUE AS COISAS FLUTUEM

        ALICE RICCI – ESPAÇO C.A.M.A.

16 OUT – 20 NOV 2021

Horário de funcionamento:

Ter a Sex: 12h às 19h
Sáb: 11h às 17h

Registro fotográfico: Filipe Berndt

 

A presença massiva de imagens produzidas por drones, algoritmos e técnicas de computação gráfica somada à intensidade de experiências imersivas em realidades virtuais, vem colocando novos problemas e desafios à pintura. Diante das restrições de circulação decorrentes da pandemia, as transformações da natureza da visualidade e da experiência espaço-temporal se intensificaram.

Foi imersa nesse contexto que Alice Ricci elaborou o conjunto de pinturas aqui apresentado. Ressignificando o conceito de artista viajante, aquele cuja produção encontra-se intrinsecamente conectada ao ato de se deslocar, a artista incorpora ao seu olhar, o olhar 360 graus do Google Street Views. É desde esse ser artista-ciborgue-viajante que percorre as ruas virtualizadas de inúmeras cidades ao redor do mundo e captura cenas de sims, espaços criados no Second Life a partir da mimetização de elementos constituintes da realidade material.

A partir dessas experiências, Alice estabelece um franco diálogo com a tradição da pintura de paisagem, seus regimes de visualidade e modos de representação. Abandonando a relação espaço-temporal, recusando os vínculos entre representação e veracidade, a artista rompe com o paradigma de visualidade e a estrutura espacial dado pela perspectiva linear. Nas pinturas de Alice, a recusa do horizonte estável nos coloca diante de uma paisagem em suspensão, como que a flutuar no espaço.

Ao contrário da vocação documental das pinturas de paisagens, nas cenas das incursões que a artista-ciborgue-viajante realizou no mundo virtualizado do Google Street View e no mundo mimetizado do Second Life são evocados a partir de fragmentos. O referente só pode ser acessado por meio de ambíguas e fragmentárias evocações topológicas – aglomerados arquitetônicos, empenas de prédio, antenas, gruas de construção civil, asfalto, quadros de distribuição de energia, elementos gráficos, ortográficos e geométricos. São Paulo, Hong Kong, Salvador, Nairobi, Santa Fé flutuam, assim como na realidade virtual, em um mesmo plano.

Do mesmo modo, em cada uma das pinturas aqui exibidas, de dois a três campos de cores estruturam a composição e nos afetam desde luminosidades e variações tonais precisas. Muito embora contrastantes, a ênfase nos tons pastel faz com que as gradações assumam uma vocação, simultaneamente, de distanciamento e de proximidade com o tom vizinho. É justamente esse devir tonal que dá unidade à tela e também faz surgir o claro e o escuro a partir de uma relação de interdependência – oposição x continuidade – que cada cor estabelece com a outra.

É ainda a partir da relação entre suaves zonas de cor e zonas de aglutinação/ dispersão de uma arquitetura em transformação que a artista ativa, desde a planaridade espacial, não um vínculo entre figura e fundo, mas entre campos flutuantes que nos convocam a experiências e deslocamentos distintos.

Considerando a importância que a música eletrônica possui no pensamento visual da artista, a amplitude visual das zonas de cor, em tons suaves, de baixa saturação e vibração poderiam ser pensadas enquanto áreas de silêncio. O recuo, o passo para trás, o distanciamento é a melhor maneira para se relacionar com o aconchego de sua unidade. Flutuando junto a sobriedade da estática cromática, o ritmo acelerado da vida contemporânea. As zonas arquitetônicas, espaços de densidade, aceleração e cacofonia que nos exigem uma aproximação, um demoramento do olhar para uma melhor apreensão da dinâmica de seus elementos constitutivos.

Outro procedimento relacionado à dinâmica do olhar e recorrente em todas as telas aqui apresentadas é a utilização do amarelo fluorescente. Essa cor é acionada, simultaneamente, como um recurso de opacidade, por meio de uma intensificação da luminosidade que interdita a visão, quanto, em sentido oposto, como um elemento de exacerbada luminosidade que atrai e conduz nosso olhar. Por meio da repetição dessa cor, a artista aciona um instigante jogo de dar a ver/tornar opaco determinadas relações compositivas e reforça a unidade do conjunto aqui exibido.

Superada a perspectiva renascentista, rasgado o plano, diante da consolidação de modelos de visualização e da onipresença de imagens produzidas por tecnologias e softwares, qual o lugar da pintura na imagética contemporânea? Como pensar a pintura de paisagem e sua relação com a representação nesse contexto? As pinturas aqui reunidas não apenas nos convidam a refletir sobre essas questões, como, cada uma ao seu modo, acolhe, reflete e toma para si o desafio de lidar com a complexa constituição espacial de um mundo constituído desde realidades duais, simultâneas, interdependentes, onde as noções, relações e localizações espaço-temporais já não são capazes de nos sustentar, onde estamos todes flutuando, em queda livre.

Fabrícia Jordão

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