EXTRAÑAR: VERBO TRANSITIVO DIRETO

        EXPOSIÇÃO COLETIVA

05 – 26 FEV 2022

A exposição é composta por obras do acervo da galeria, reunindo 14 artistas:

Alice Ricci, Caio Carpinelli, Éder Oliveira, Gisele Camargo, Laís Myrrha, Luana Vitra, Marcone Moreira, Marcos Siqueira, Rafael RG, Randolpho Lamonier, Thiago Martins de Melo, Sebastião Januário, Umberto Costa Barros e Wilson Baptista.

A curadoria é assinada por Julia Costa, que se despede da função de assistente da galeria com o desafio do seu primeiro projeto curatorial.

Registro fotográfico: Eduardo Eckenfels

extrañar:
verbo transitivo direto

Estranhar. Verbo fundador da filosofia e da ciência, motor da criação artística. Extra. Estranhamento que só se torna possível na relação com o outro, na diferença e também no espanto diante das (a)normalidades. É verbo que incomoda e amedronta, mas que possibilita o olhar inaugural sobre as coisas; e na crença dos mais otimistas, a criação de novas realidades. Para além da superfície horizontal, mil metros de profundidade debaixo d’água nesse barco que flutua sozinho no oceano de significados sutis, eis que emerge uma bolha disforme. Envolta por um tecido fino, embrionário –mais forte que teia de aranha-mãe –trazida nos braços do artista, exímio mergulhador de águas profundas, essa bolha representa um novo mundo, que não se traduz em palavras, mas em imagens, em arte, para quem está disposto a ver. Ver pela primeira vez.

Encaro o desafio da curadoria atravessada pela capacidade de estranhamento dos artistas. Ver o acervo como Clarice vê o ovo sobre a mesa. Esta é a postura que assumo. Proponho-me a desfamiliarizar tudo que há aqui, a convivência diária de pouco mais de um ano evaporando aos poucos. Com esforço(e fracassos), passo a adquirir um olhar estrangeiro sobre as obras que habitam este espaço e a imaginar uma exposição de dentro pra fora, não somente por se tratar de uma exposição de acervo, mas também e, sobretudo, pelo gesto familiar de descer as escadas e olhar por detrás destas paredes. Feito verbo, transito. Transitivo: aquilo que é passageiro, que não permanece; é para a geologia o terreno que forma a transição de uma camada para outra, de formação mais recente.

Nesse sentido, transitam também as obras aqui escolhidas, propondo passagens, caminhos, retornos, destinos. Em uma diversidade de temporalidades, propostas e suportes, os encontros se dão ora pelas formas e composições estabelecidas pelas poesias visuais, ora pelos significados e interpretações que as obras despertam. São imaginários que não têm a pretensão de contar uma mesma narrativa, mas que compartilham de olhares dispostos a estranhar o mundo tal como ele é, e, assim, burlam seu status quo.

Não obstante as particularidades linguísticas e territoriais que remontam séculos de colonização entre nós e os demais latino americanos, extrañar é também sinônimo de saudade. Sentir falta do que já foi, ou do que deixou de ser e em última instância, daquilo que deveria ter sido. As obras que compõem esta exposição extrañam paisagens (no sentido mais amplo do termo) que poderiam ter existido, não fossem os apagamentos e violências positivados ao longo da história, reescrevendo-as e transgredindo a realidade pela palavra, pelo absurdo, pela fragmentação e pelo sonho.

Eu também extraño.

Julia Costa

Pin It on Pinterest

Share This