EM PÉ NA BEIRA DO ABISMO

        HENRIQUE DETOMI

05 MAR – 23 ABR 2022

Em suas pinturas, paisagens montanhosas são desconstruídas a partir de recortes feitos com máscaras que deixam aparente a base de preparo do suporte.

Os espaços abismos – espontâneos e ao mesmo tempo deliberados – são construídos a partir da falta de matéria, ou em outras palavras, por onde a tinta não toca.

Essa é uma pesquisa que vem sendo trabalhada por mim há pelo menos 5 anos. Ela reúne meus pensamentos sobre a paisagem e a minha fisicalidade sensorial em relação ao local que eu encontro. São formas de construir e desconstruir espaços naturais, comenta Detomi.

Registro fotográfico: Eduardo Eckenfels

Em pé na beira do abismo

Henrique Detomi retrata paisagens idílicas, construídas e desconstruídas a partir de experiências de caminhadas por ambientes campestres. A exposição reúne trabalhos da série “Minutos Antes do Fim”, que variam em escalas e suportes, sejam eles madeira ou tela, o artista busca representar ambientes construídos a partir de memória, imagens produzidas por ele mesmo ou pesquisadas na internet.

Cada pintura é um processo individual resultado de andanças por ambientes rurais e geralmente montanhosos. Ao retornar para o ateliê, Detomi busca tanto a memória visual quanto a sentimental sobre seu trajeto. A partir de novas pesquisas de imagens que remetem a esta memória do seu estado de ser, começa a sua jornada na pintura. Cada tela ou pedaço de madeira tem um preparo inicial de base – geralmente em gesso crê para as telas e bolo armênio ou cola de pele de coelho para as madeiras – em seguida o artista faz uma reserva com máscaras de áreas do suporte para então aplicar a tinta óleo. São processos e materiais baseados em práticas comuns da história da pintura e da arte.

Cada tela tem uma duração específica para o começo e o fim de sua pintura, assim como suas caminhadas também chegam a um destino. O processo da pintura, portanto, é o seu reencontro com o trajeto, e que, apesar de ter um fim, é o objetivo e o motivo principal de sua pintura. Esse é um processo afetuoso, meditativo e introspectivo, que além de tudo, adiciona camadas emocionais por se basear em momentos passados.

Memória é uma construção que reúne recortes do evento, parcelas de sentimentos vividos durante ato, lapsos factuais, emoções adicionadas ao longo do tempo em momentos póstumos, as lacunas que o tempo cria na medida em que aquele evento se distancia do nosso presente e o estado de espírito do presente que analisa tal momento. Memória nos demanda deliberar subjetivamente sobre aquela construção, cada vez introduzindo mais espaços entre o evento e o presente. Os espaços vazios produzidos entre as pinceladas acolhem essa falta de matéria assim como permitem que sejam preenchidos de formas distintas. E para todo momento passado há também o momento presente, no qual se pinta a obra, e em seguida, que se encontra com a obra pronta.

Estes vazios introduzidos por Detomi, trazem a ele o espaço de contemplação do ser – seja em relação ao espaço geográfico ou consigo mesmo. Esse espaço também pertence ao expectador. Ao confrontar o quadro, o sujeito está confrontando esse abismo, esse nada. Vestígios de terra que não foram preenchidos, recortes de paisagens, incompletude ou formas finais podem ser possíveis ponderações visuais, que nos puxam para o interior do quadro e de nós mesmos.

“Em Pé na Beira do Abismo” retrata uma possível posição física, perante uma fissura terrestre pertinente aos locais pelo qual o artista vaga, mas também produz esse ambiente sensorial e emocional do “não-saber”, ou de um momento decisório. Quando nos deparamos com um abismo, podemos optar por enfrentá-lo seja por acreditarmos que o venceremos, ou porque já não nos importa mais o que vem adiante. O oposto também acontece: optamos por não o enfrentar, pois desejamos preservar o futuro, e por isso, mantemo-nos atentos para não nos deixar arriscar a queda. Independente de qual seja a decisão, este momento de confronto com o abismo tende a nos transportar em solitude para um lugar deslocado do nosso espaço-tempo presente. Seja ele um local físico ou sensorial, ele suspende nossa percepção do nosso tempo presente-futuro.

Não é necessário pontuar como se preenche esse espaço, muito menos esperar que todas, todos e todes o experienciam de forma igual a cada vez que se depara com esse abismo. Pelo contrário: é uma ação que pode ser singular ou coletiva e que vai de encontro com as diversas versões de ser que cada um de nós somos, possuímos e passamos por.

Gabriela Davies

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