DESENLACE: MAS ANTES O FIM

        MÔNICA MARIA – ESPAÇO C.A.M.A.

07 MAI – 05 JUN 2022

Registro fotográfico: Filipe Berndt

desenlace: mas antes o fim

diante de elementos visuais advindos de um repertório constituído a partir de imagens de paisagens inóspitas, fotografias, objetos comuns e relações entre pessoas, Mônica Maria, por meio de suas pinturas, nos convida ao exercício de “enfeixar” o nosso olhar, instigando narrativas a partir de seus títulos e da observação minuciosa, atenta aos detalhes e às ações impressas nas telas.

fim é o cotidiano, é o dia a dia, é o filtro de barro seco: se não encher, não se bebe água fresca. neste contexto, a ciclicidade da vida nos propõe um início e um fim permanentes, semelhante aos dias, desde o nascer ao pôr do sol, em um horizonte de possibilidades onde a vida acontece.

na sua produção, Mônica tem como inspiração a paisagem, chamada por ela de “paisagem extraterrena”, que, muitas vezes, pode ser identificada como um território árido, desgastado, talvez por sua experiência latente com a paisagem mineira belo-horizontina, cercada de montanhas rochosas de minério. em suas experiências com a paisagem, e tomando como ponto inicial o seu lugar de origem e permanência, a artista sempre está diante de um horizonte. este mesmo horizonte, que se apresenta nas telas, em um segundo plano, configura uma catástrofe iminente, em contraponto às cenas no primeiro plano, para onde nossa atenção é apontada. é neste último plano que as relações se estabelecem e o estado de conexão e presença se realiza.

nas pinturas, temos como centralidade o instante dos acontecimentos. em algumas delas, a paisagem anuncia o tema ou, mesmo quando não está explícita no horizonte, se apresenta na ação. segundo a artista, nas obras aquário, fora do ar, galinha sem cabeça, 22 segundos e dandão é possível ver “pessoas plenas em ambientes hostis”, em contraponto à sutileza dos corpos que se relacionam entre si, seja na solitude seja no compartilhamento da presença. em sua construção formal, os horizontes e planos de fundo são construídos pela sobreposição de camadas de tintas até alcançar o desejo tonal. não há um estudo prévio de cores. elas são produzidas a partir da experimentação direta na tela, constituindo, assim, a expressão no ato em si.

construir narrativas a partir de imagens é um recurso que nos pertence desde os mais remotos registros. o enredo se constrói, antes de tudo, pelo repertório imagético de quem se dispuser ao instigante desejo de imaginar – o que constitui a nossa capacidade de “enfeixar” o mundo e as relações, proporcionando experiências significativas.

estar presente em um mundo de incertezas nos coloca diante de escolhas de ser e estar e, em suas pinturas, Mônica sugere narrativas relacionais que, em sua maioria, são demonstrações de afetos e presença sublime, que nos convidam ao olhar atento e minucioso, o ver de perto e, com isso, experienciar o mundo a partir da valorização das conexões entre as pessoas e o todo. a artista acredita que é possível ter plenitude, mesmo diante do caos anunciado ou em curso, apresentando-nos a possibilidade de pensarmos na vida a partir da leveza.

Fabíola Rodrigues

Pin It on Pinterest

Share This