DAR BANDEIRA

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BRECHA

Curadoria e Texto Marina Câmara

A primeira exposição individual de Caio Carpinelli traz um panorama da produção que o artista vem realizando desde 2015. Questões como a entrega, o sagrado, a coragem, o sofrimento e, sobretudo, o sensível são alguns dos argumentos tratados em sua poética a partir do conjunto de pinturas que ele apresenta.

Se quiséssemos circunscrever o tema de suas representações (são, de fato, representações?), dificilmente escaparíamos daquela velha amiga da história da arte, a paisagem. Mas como se trata de uma pintura absolutamente contemporânea, pouco cabe o uso dos jargões e o recurso a termos canônicos das disciplinas artísticas. Por exemplo, podemos dizer que há figuração e abstração na produção de Caio, mas, não necessariamente é possível afirmar com precisão em quais trabalhos predomina uma ou outra. 

Ao lado de uma geração de artistas contemporâneos tão jovens quanto talentosos em suas articulações e formulações poéticas, Caio Carpinelli, através de seu trabalho, mais interroga o tom de certeza da bela disciplina da história da arte (como disse Osvaldo Fontes Filho no prefácio de A pintura encarnada) do que a ela se adequa.

Suas imagens sugerem horizontes, muros, partes de telhados, de tijolos, de tacos e de céu, fragmentos de arquiteturas, clarões, escuridão. Mas, em certos momentos, o que vemos nessas mesmas imagens são dilacerações daquilo que sua pintura estaria representando. Ou melhor, não são exatamente representações de significantes, mas sim abertura – rasgo, melhor dizendo – para um aglomerado de sentidos possíveis. 

Se a pintura de Caio insinua algo, não são senão passagens, brechas para suportar a realidade. Nada ali está estático, mas o tempo ao qual elas parecem pertencer nos remete a imagens de flashs oníricos ou à visão de uma realidade suspensa – tal como ela passou a nos parecer desde o começo da pandemia.

Poderíamos até propor uma contextualização sócio-histórica sobre o bairro da Zona Leste de SP, Belém – onde Caio vive desde sempre –, já que o artista não só fala a partir das características desta localidade, como elas protagonizam grande parte dos referentes e das imagens produzidas por ele. Mas essa contextualização me pareceria de pouco proveito, já que em conversa com o artista, ele me contou que os temas de suas pinturas dizem, é claro, sobre ele, sua própria realidade. No entanto, Caio disse também que aquilo que é da ordem do coletivo está tão presente em seu trabalho quanto os aspectos subjetivos ou íntimos. Nesse sentido, importam sim as especificidades do Belém e suas implicações sobre o artista, ou como aquele ambiente esculpiu e formou as suas idiossincrasias. Porém, ele tem consciência de que o interesse maior da arte está no ato de dar margem para que se universalizem, ou pelo menos para que se criem brechas voltadas a uma ampliação daquelas questões que a princípio pareciam pertencer a algo de ordem individual. E sua obra trata, com muita clareza, essa necessidade de assumir o múltiplo no uno tanto quanto de preservar as especificidades desse último. 

O convívio foi e tem sido o provimento impreterível para sua poética. E, a propósito disso, vale lembrar que o contato com o universo da arte seus equipamentos, como as galerias e os museus onde Caio trabalhou, e seus agentes, como os artistas com os quais ele conviveu e convive foi estruturante para que ele elaborasse o lugar de projeção da sua poética. Lugar esse que não me parece ser senão o da compreensão de que se existe um papel o qual a arte exerce é o da solicitação de uma presença muito honesta, a qual ela mesma também oferece na qualidade do objeto artístico ou da ação do artista. Sobre essa presença, Caio Carpinelli diz: “Entregar-se na sensação. Você vai sentir e vai aguentar o tranco”, declarando como se rende ao ofício de modo tão lúcido quanto sensível (admitindo que a chamada lucidez é na verdade desdobramento do sensível) e como encara com coragem a empresa de ser artista.

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