Da morte e do amor – proposições para um aniquilamento do outro

marc davi

18/NOV — 09/JAN 2016

Horário de funcionamento:
Seg a Sex: 10h às 18:30h
Sáb: 10h às 14h

Registro fotográfico: Eduardo Eckenfels

DA MORTE E DO AMOR

 

Diante da delicada sobremesa composta de goiabada e queijo – batizada de ‘Romeu e Julieta’ – cuidadosamente cortada com precisão geométrica, vislumbra-se a potência escultórica de um corpo feito de camadas. Moldadas, uma a uma, as fatias aglutinam-se como carne. E ao reconfigurar o doce e o queijo, numa montagem silenciosa típica das naturezas-mortas, adentra-se o o símbolo da carne em busca do tênue fio quase imperceptível entre a própria carne e o corpo dos amantes trágicos que dão nome ao prato.
Por que se devoram, diariamente, as pálidas lâminas de queijo aderidas à massa escarlate da goiabada?… Sobrepostos repetida e indefinidamente os ingredientes tombam sobre si mesmos e ganham forma, peso e densidade de carne. Tornam-se, assim, uma outra carne: igualmente crua e comestível, que agora resguarda, contudo, não somente a natureza de sua imagem, mas o significado transgressor do que fora a conjunção de amantes proibidos. Um amor que ao longo dos anos perdeu o seu vigoroso caráter clandestino em nome de uma ingenuidade pueril, convertendo em signo kitsch algo originalmente virulento – afinal de contas encarnava uma ameaça às rígidas regras sociais e uma fissura, dessa ordem, daria vazão à artificialidade de nossos acordos civilizatórios ou mesmo nossos arranjos existenciais. O fim trágico desses amantes é, ainda hoje, o mesmo destino que se confere a tudo aquilo que abala o frágil alicerce de nossas linguagens: um aniquilamento que recai sobre o corpo. Se essas esculturas comestíveis constituem a matéria viva de um símbolo decadente, devorá-las desperta um registro antigo do ato ancestral de domar o corpo do outro. A sua destruição é, antes, a negação da ameaça representada. Mas se por um lado o anestesiamento desse símbolo é engendrado por um cotidiano mecânico repleto de rituais esvaziados, é dentro desse mesmo ciclo de repetições que um apetite de reativação pode ser deflagrado. É como se toda uma potência poética permanecesse em estado de latência e, uma vez desperta, passasse a anunciar, novamente, o quão desastrosa fora a estratégia de tentativa de dissolução. “Da morte e do amor (…)” é sobretudo um rastro. Um rastro de fragmentos desses corpos que se revelam aos pedaços, aos poucos…. em fatias e postas. São iscas posicionadas num abandono premeditado, em quinas, bordas e beiras, para a revivificação de uma memória arcaica quase extinta. São breves repousos para o regozijo, para a comunhão e, talvez, para o espanto.

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