CORPOCONTINENTE

        EXPOSIÇÃO COLETIVA

06 NOV – 18 DEZ 2021

Horário de funcionamento:
Seg a Sex: 10h às 19h
Sáb: 10h às 16h 

Registro fotográfico: Eduardo Eckenfels

Ainda estamos aqui, num lugar chamado travessia.

O presente encontro é o desdobramento de uma pesquisa acerca das origens e do mito fundador de uma nação afropindorâmica¹ brasileira e de uma reflexão sobre a constituição desta nação que se inicia com a chegada de povos africanos e em especial com a significativa presença de povos de origem bantu.

Os registros históricos apontam uma grande influência da cultura bantu em Minas Gerais e é a partir desse contexto, em comum ao próprio território mineiro, que se iniciam as questões apresentadas nesta exposição.

Na constituição do mundo, a partir da cosmologia bantu-kongo², o mito da criação origina-se de kalunga (universo). Diante de vários dos significados do que vem a ser kalunga, tomaremos como recurso de entendimento o seu valor enquanto fonte do poder universal, que fez todas as coisas acontecerem no passado, que faz todas as coisas acontecerem hoje, e, sobretudo, que fará todas as coisas acontecerem amanhã. O poder do todo-no-todo, que constitui a vida em si mesma. Outro significado que nos motiva nessa construção é o prefixo ka-, que significa ser de modo fluido, ou seja, refere-se à maneira de ocupar os lugares no mundo.

A partir do encontro dessas atribuições e dos modos de ser e de existir do povo bantu, partimos para outra significância que atravessa essa constituição de mundo que é a relação desse povo enquanto ser humano e a sua presença diante do mundo, tendo como uma de suas características a conexão com natureza a partir de sua materialidade. E diante disso, consideramos alguns dos elementos constitutivos dessa natureza: o ferro, o fogo, a terra, a água e o ar.

A questão que adentramos é de como a cultura bantu, presente na constituição da cultura brasileira, está intimamente conectada com a produção artística contemporânea afropindorâmica, e principalmente com a produção de artistas que compõem a mostra. As escolhas partiram de uma identificação estético-política das narrativas apresentadas pelas obras e das relações que elas estabelecem entre si; além da materialidade que compõe os trabalhos e suas representações, levando em consideração suas singularidades.

Em sua organização apresentamos dois núcleos: corpo-território, que diz da capacidade de os artistas afetarem o mundo em que vivem e de serem afetados internamente por esse mundo – e corpo-paisagem, que nos conduz a pensar o quanto a geografia dos lugares é capaz de nos constituir.

Em corpo-território, as obras traduzem-se enquanto atos de narrar, interpretar o tempo presente-passado, cujos sentidos e significados são constituídos na maneira como compartilham um saber de si e sobre si. Já em corpo-paisagem, referem-se à totalidade dada a significação da presença do corpo no mundo e a como esse corpo se configura como paisagem.

Nas obras apresentadas, identificamos narrativas em que os tempos e os espaços confluem, nas quais a medida das coisas é aquilo que nos afeta. Memórias, ficções, espiritualidade, fricções, resistência, desejos, resiliência e continuidade. Corpos que contra-atacam à sua maneira, frutos de atravessamentos ancestrais na potência de ser e de existir. Do desejo expressivo e do exercício incessante de se conectar com kalunga. Diante desse contexto, reunir várias gerações de artistas a partir de diversas práticas é, de certo modo, um mapeamento idiossincrático da história desta terra afropindorâmica.

Com a atenção voltada para a diversidade de experiências e conexões possíveis e para os desdobramentos dessas narrativas diante do mundo que se apresenta, a mostra é um convite a refletir sobre as possibilidades de compor narrativas contra-hegemônicas e de fomentar a possibilidade de construção de uma outra historiografia da arte contemporânea.

¹ termo cunhado pelo escritor Antonio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo.

² referência aos estudos do filósofo Bunseki Fu-Kiau, por meio da grande contribuição e pesquisa do professor Tiganá Santana Neves Santos.

Fabíola Rodrigues

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