ANA
LINNEMANN

1958 — Rio de Janeiro
Vive e trabalha no Rio de Janeiro

Ana Linnemann

A artista Ana Linnemann trabalha a partir de uma trama de materiais, objetos e técnicas. Segundo o crítico Moacir dos Anjos, seu trabalho “é informado por uma vontade de se deter com vagar diante dessas muitas coisas que habitam o mundo. Considera-se naquilo que têm de mais claro e, ao mesmo tempo, no que têm de oculto (…). Coisas que despertam ou comprovam na artista uma imensa atração pelo comum da vida. Isto a leva acercar-se delas o mais possível para entender sua natureza banal e mundana, como se fosse a primeira vez que as visse”.

Suas obras já foram apresentadas em instituições como:

. MAM – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (RJ);

. MAR – Museu de Arte do Rio;

. Paço Imperial (RJ);

. Museu Histórico Nacional;

. Galeria Laura Alvim (RJ);

. CCMA – Centro Cultural Maria Antônia (SP);

. Centro Cultural São Paulo (SP);

. Sculpture Center (Nova York);

. Museo del Barrio (Nova York);

. Long Island University (Nova York);

. MALBA (Buenos Aires);

. Oslo Kunstforening (Oslo);

. MIP – Museu Imperial de Petrópolis (RJ).

pRêmios

. 2004: recebeu as bolsas Vitae (São Paulo) e Pollock-Krasner (Nova York);

. 2011: prêmio Pró-Artes Visuais da Secretaria de Cultura da cidade do Rio de Janeiro, para a produção da monografia Ana Linnemann Ultra Normal (Cosac Naify);

. 2013: um dos artistas contemplados pelo prêmio Arte e Patrimônio, Iphan, MinC.

Graduou-se em Design pela PUC-Rio, recebeu seu mestrado em Escultura pelo Pratt Institute, NY, e doutorado em Linguagens Visuais pela Eba-UFRJ, RJ.

Uma volta a mais no parafuso

Sérgio B. Martins

Pouco após graduar-se em artes, em meados dos anos 1960, Bruce Nauman chegou à seguinte conclusão: se era artista, e tinha um ateliê, então tudo o que ele fizesse nesse ateliê seria arte. Foi assim que Nauman deu início a uma minuciosa investigação processual sobre o fazer artístico. Esquadrinhou o tempo transcorrido e os eventos ínfimos que ocorriam em seu ateliê. Além disso, ensaiou inúmeras ações heterogêneas registradas em mídias diversas. 

Em Exposição de Galeria – Notas sobre a Prática, Ana Linnemann compartilha do interesse (e do humor) de Nauman, embora por uma via diferente: ao levar para a galeria obras que aludem a diversas possibilidades da prática artística, Linnemann reverte a ênfase do norte-americano no processo e recoloca sua indagação na chave do objeto. Nas diversas obras aqui expostas, ações integrantes do fazer artístico – desenhar, aparafusar – são desempenhadas por engenhocas ou gadgets artísticos. Ocorre, no entanto, que um gadget artístico é uma contradição em termos.

Gadgets

Em sua proliferação de usos, os gadgets levam ao paroxismo a forma-mercadoria: se um mesmo produto serve para quebrar nozes, medir a pressão atmosférica, sintonizar em radiofrequência amadora e manter gelada a cerveja, não é porque  seja mais prático ter todas essas utilidades ao alcance de uma só mão – quem de fato usa todas as funções de um gadget, afinal? –, mas porque este produto-coringa é potencialmente capaz de apelar para consumidores com diferentes necessidades.

Em um texto dos anos 1920, Alfred Sohn-Rethel, pensador que orbitava a Escola de Frankfurt, espantou-se com o misto de disfuncionalidade e criatividade que regia a relação dos italianos do sul com as máquinas. Naquele contexto, observou Sohn-Rethel, as máquinas nunca serviam exatamente ao seu propósito original. Aos ouvidos de um napolitano, aliás, soaria até descabido falar no primado de tal propósito. 

Segundo uma lógica próxima à da nossa familiar gambiarra, os napolitanos frequentemente emendavam, modificavam, remendavam ou combinavam máquinas, de modo que a utilidade de cada máquina era moldada segundo os caprichos ou a necessidade imediata de seu dono. “Para um napolitano”, escreve Sohn-Rethel, “é quando as coisas quebram que elas começam a funcionar”, pois é aí que se a abre a janela para que seu dono intervenha em sua estrutura, em seu sentido e, por fim, em seu uso.  Ao consertar o motor de seu barco, um barqueiro poderia facilmente modificá-lo para que ele também passasse a servir como cafeteira – e só assim, completa o pensador, um napolitano sente que aquela máquina é de fato sua. 

Uma máquina de desenhar círculos

Uma máquina de desenhar círculos, como a montada por Ana Linnemann na Mesa do Ateliê, parodia o estatuto do gadget – e, por conseguinte, da mercadoria – para invertê-lo em seu oposto. Ao fazê-lo, ela nos remete ao “ideal do quebrado”, título do texto de Sohn-Rethel. Não porque a máquina tenha estado ela própria quebrada, mas porque sua relação com o sentido é análoga àquela do napolitano com a utilidade.

À primeira vista, a geometria produzida pela profusão de articulações e planos sobrepostos por Linnemann assemelha-se à de certas estéticas construtivistas, mas a aproximação é errônea: é a idiossincrasia, e não a racionalidade projetiva, do qual rege o acúmulo anguloso de prateleiras que trepa na Mesa do Ateliê. A racionalidade projetiva é, enfim, desviada. 

Daí que estas obras sejam superficialmente semelhantes a gadgets – são os títulos, em grande medida, que nos levam na pista falsa –, mas diametralmente opostas a estes em sentido. Afinal, que uso tem uma máquina de chutar paredes que não talvez o de poupar o pé da própria artista naqueles momentos de frustração tão característicos de qualquer fazer informado pelas amarras do rigor, aqui representadas pela via do humor?

Parafuso

Se o giro automático dos parafusos no Objeto Simétrico e Instável corrobora essa decidida inversão da utilidade, isso se dá pela exata calibragem de sua velocidade. Seu tempo não é nem atravancado e irregular, como no espasmo muscular de quem fura com a força braçal, nem instantâneo e eficaz, como num aperto do gatilho da furadeira; trata-se do tempo moroso da máquina inútil. 

Se este tempo é também hipnótico aos nossos olhos, é porque ele reflete e inverte – evidencia, portanto – o próprio fascínio que as mercadorias comumente exercem sobre nós. Ao devolver-nos reflexivamente este fascínio, Exposição de Galeria dá uma volta a mais no parafuso.

 

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