ALUMEIA

        ANDRÉ RICARDO

06 AGO – 03 SET 2022

O título faz referência ao interesse do artista pela luz que o guia, aquela que ele procura e brilha na escuridão, como um facho que Alumeia para identificar coisas específicas.

Esta luz tem a ver com seu desejo de iluminar o caminho de volta para casa, com a busca de um patrimônio cultural de identidade, de um repertório visual urbano que surge de repente através das fachadas da cidade e sobre os quais compõe cenas mais complexas, permitindo espaços de convivência para diversos simbolismos que ligam desde o Nordeste a suas viagens na cidade de São Paulo.

Surgem nos seus trabalhos, assim, os bonecos biruta dos postos de gasolina; os automóveis – pintando não objetos em si, mas das suas representações nas fachadas das oficinas mecânicas. Há também em sua pintura constantes alusões à fauna, à flora ou à tradição oral que há séculos guarda a história dos povos racializados.

Registro fotográfico: Eduardo Eckenfels

ALUMEIA

Lembro que em fevereiro de 2010, em um restaurante em Madri, os artistas Sandra Cinto e Albano Afonso me deram um exemplar do livro laranja do Ateliê Fidalga, um volume que reuniu a obra de 55 artistas que na época estavam ligados ao grupo de acompanhamento em seu ateliê. Naquela noite, folheando as páginas daquele catálogo, vi pela primeira vez as caçambas de André Ricardo. Eu não era curador ainda, e suponho que nem escrevia. Naquela época eu mal estava terminando meus estudos de História da Arte e fazendo um estágio com a editora Dardo, elo do Ateliê Fidalga na Galiza, com a qual também era colaborador o eterno Paulo Reis.

Não demorei muito a entrar em contato com André. Tentei achar nossas primeiras mensagens, mas elas não estavam mais lá. No entanto, creio que nossa primeira conversa ocorreu nos meses seguintes. Essas grandes pinturas despertaram minha curiosidade e comecei a procurar uma maneira de vê-las ao vivo. Quando, em 2015, tive a oportunidade de convidá-lo para uma residência na ilha de Mallorca. Foi lá onde nos conhecemos e onde finalmente pude ver um grupo de obras que André produziu durante sua estada no vilarejo de Alaró, e que fizeram parte de Campo a través, a primeira exposição que realizamos juntos.

A pintura de André naquela época estava muito preocupada com a luz, com a forma como ela estava representada, motivo pelo qual aproveitou aquela viagem para conhecer Pádua e Bolonha, para ver Giotto e Morandi. Apesar da juventude de André, seu profundo conhecimento da técnica e dos materiais, seus comentários pertinentes sobre pintura e seu profundo conhecimento da história da arte europeia surpreenderam muitos amigos pintores. Uma noite em Madri, em um restaurante no bairro Lavapiés, sob o olhar atento daqueles pintores, André falava de pigmentos, sombras e acabamentos, e eu comemorava porque finalmente tinha tido a oportunidade de sentá-lo à mesa daqueles bons amigos.

Só anos mais tarde, em minha primeira viagem a São Paulo, entendi as fontes que ele havia bebido. Estudante de destaque da ECA/USP, ouvi, em minhas sucessivas viagens, pintores como Paulo Pasta e Marco Giannotti se referirem a ele com admiração e descreverem sua carreira como bem-sucedida apesar de tudo. Ali também entendi sua obsessão com a luz, a cor e uma composição que em todos os lugares se referia à arquitetura e à azáfama de uma megalópole como aquela.

Lembro-me de minha primeira visita ao ateliê de André no Campo Limpo, um distrito no sudeste da cidade. Era março de 2017, e alguns meses antes, mudanças importantes começaram a tomar forma em sua pintura. O primeiro sinal de tudo isso foi uma série de aquarelas também chamada Campo Limpo, datada de 2016, que André me mostrou de longe e que, uma vez, vendo através das janelas de sua casa, pude decifrá-las.

Entendi então a relação com aquelas arquiteturas aglomeradas, com cores brilhantes e sem ordem aparente, que de repente irromperam na pintura mais hegemônica que André tinha produzido até aquele instante. Foi então que ele retomou os desenhos que havia feito mais de uma década antes em suas viagens quase diárias de trem de Grajaú – o subúrbio sul da cidade onde André nasceu – e na então recém-inaugurada Linha 9 – Esmeralda da CPTM. Aqueles desenhos que mostravam viajantes adormecidos nas mais de duas horas que os separaram da região central de São Paulo se tornaram, ao longo dos anos, em mais que apenas registros de uma viagem física.

Daqueles esboços rápidos do ou até o Grajaú e, mais tarde, da visão do Campo Limpo, ele se interessou em compreender a distância social entre esses bairros e a região central da cidade. Ele estava subitamente consciente de que sua jornada era cheia de contrastes e camadas. Florescia de um jeito simbólico a viagem de seu povo às margens da cidade, desde os estados do Nordeste – Pernambuco, Alagoas e Bahia, no caso de André – até a periferia de São Paulo. Manifestava-se a viagem interior, o retorno a tudo isso, o sentimento de pertencimento e a reconstrução de uma identidade roubada. E isto estava acontecendo na aurora do governo Lula, recentemente inaugurado e que, através de políticas sociais sem precedentes, favoreceu o acesso ao ensino superior e às bolsas de estudo naqueles bairros, promovendo a luta pela igualdade de oportunidades.

Fiquei surpreso na época com a profunda mudança que a pintura de André estava passando. Lembro-me da cópia do “fotolivro” Pinturas e Platibandas de Anna Mariani que pude ver em sua casa, um documento que marcou esse ponto de virada de forma decisiva. Fui primeiramente atraído pelo cuidado com que ele valorizou aquela primeira edição do livro, com a plasticidade das fachadas nordestinas, a dignidade e o cuidado com que a arquitetura popular mostrou suas infinitas possibilidades, os planos de cor e o repertório geométrico muito rico. Lembro-me também de descobrir com André os quadros de Alfredo Volpi, Eleonore Koch e Rubem Valentim, enquanto contemplava suas obras na Pinacoteca do Estado. Admito que levei um tempo para entender, não as razões desta mudança, pois as visitas ao Campo Limpo me fizeram pensar por que André levou tanto tempo para fazer a si mesmo todas aquelas perguntas, senão onde seu profundo interesse pela luz seria alojado a partir daquele momento.

André me diz agora, ao decidirmos o título desta exposição, que esse é o interesse que o tem guiado nesta virada, e que a diferença é que a luz que ele procura agora é aquela que brilha na escuridão, um facho que alumeia para ajudar a identificar coisas específicas, evitando ser direcionado para um todo. Esta luz tem a ver com o desejo de iluminar um caminho de volta, com a busca de um patrimônio cultural de identidade, de um repertório visual que surge de repente através destas fachadas que lembram de fato as de Anna Mariani, mas que André as transforma em fundos sobre os quais compor cenas mais complexas, espaços de convivência para diversos simbolismos que ligam o Nordeste, sim, mas também as viagens do Grajaú, do Campo Limpo ou da Vila Sônia, que é onde André continuou pintando a série. Surgem, assim, os bonecos biruta dos postos de gasolina; os automóveis – pintados não dos automóveis em si, mas daqueles representados nas fachadas das oficinas mecânicas – e assim acontece com barcos, motos, aviões ou com as betoneiras, que inevitavelmente nos lembram que as abstrações luminosas que André Ricardo pintou anos atrás eram também caçambas ou escavadeiras. Há constantes alusões à fauna, à flora ou à tradição oral que há séculos guarda a história dos povos racializados.

Alumeia é tudo isso, e André diz que também esconde uma certa sonoridade popular, a mesma de Caiaca, aquela primeira palavra que escapou em 2019 dos lábios de sua filha Dandara e que deu o título à primeira exposição deste novo ciclo de pinturas. Esse fato, nas palavras de André, mais do que um fato biográfico, assume o significado simbólico de celebrar a vida, a inocência e a surpresa de ver algo pela primeira vez.

Ángel Calvo Ulloa
(
Revisão: Paola Fabres)

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