À porta de casa

fábio baroli

03/OUT — 10/NOV 2018

Horário de funcionamento:
Seg a Sex: 10h às 18:30h
Sáb: 10h às 14h

Registro fotográfico: Eduardo Eckenfels

Nascido em Uberaba, Fábio Baroli começou sua carreira em pintura em 2007, estudou Artes em Brasília, tendo vivido no Rio de Janeiro antes de voltar à terra natal, cujas paisagens, curiosamente, permaneceram habitando suas telas ao longo de mais de uma década de produção, sob o olhar da dedicada ciência que elabora por suas imagens, a “Antropomatutologia”, destinada ao convívio com matutos que povoam os interiores de várias regiões brasileiras, ao estudo pela pintura de seu ethos social e poético, seus hábitos rotineiros de trabalho e sociabilidade, suas andanças, mitologias e apaixonantes histórias.

As imagens de Baroli trazem o matuto como sujeito de uma narrativa contemporânea, o que lhe permite tanto uma entrada pela memória afetiva de sua infância e adolescência em Uberaba, tendo muitos matutos por parentes e vizinhos, quanto reinventar a paisagem do Triângulo Mineiro sob chamas, numa revolução vinda do campo brasileiro, ou imaginar manifestações com a turma da rua repercutindo as notícias vistas no noticiário da tv, reencenadas por Baroli com ironia e forte questionamento político acerca dessa paisagem interiorana que, ainda desconhecida, foi tão tipificada pelo imaginário da arte moderna, conforme as paisagens mineiras de Guignard e Inimá de Paula. A começar daí o artista politiza um tema aparentemente ameno, já que a paisagem interiorana a que dá visibilidade é um universo brasileiro amplamente ignorado, preconceituosamente tido por ultrapassado e fadado a deixar de existir em breve tendo em vista a aceleração imposta pelas dinâmicas urbanas. Assim, nada inocente do ponto de vista político na escolha da paisagem – lugar, portanto, de resistência, permeada sempre de soluções, apropriações, respostas e afirmações destinadas ao tempo presente, de convulsão política, eleições acirradas e novos coronelismos.

“À porta de casa”, título da exposição, define um lugar de sociabilidade partilhada, refere-se a uma prática muito comum nos interiores brasileiros em que as pessoas colocam bancos nas calçadas em frente a suas casas convidando assim quem passar pela rua a se aproximar. No espaço público, sob a mesma hospitalidade oferecida na intimidade do interior da casa, os encontros e conversas ocorrem naturalmente e a vida se dá em sua apresentação mais crua e sem mediações. São nessas calçadas que muitas cenas de interesse para o pintor ocorrem: matutos que vagueiam por ali chegam para provar um café com broa de milho ou pão de queijo recém assados; crianças chupam laranjas sentadas no chão; cachorros e galinhas passeiam por entre os frutos da terra – bananas, frutas, doces, comidas, fumos e confidências compartilhados perto do muro; vendedores e viajantes de toda sorte trazem relatos de terras distantes. As narrativas e caminhos se multiplicam e se sobrepõem aí assim como os campos pictóricos compostos por Baroli acoplam perspectivas diversas sob o fundo bege de gesso crê, amarelado. Em sua pintura tudo é composto com precisão e delicadeza, a imagem pintada adere afetividade ao que se apresenta nas fotografias de álbum familiar, ou imagens reinventadas em realismo mágico ou simplesmente o decantar do tempo frente às fachadas de arquitetura vernacular e colorido desmanchado. Fábio Baroli nos convida a adentrar nessa geografia humana do interior brasileiro atentando para certas perversidades que se insinuam no percurso.

Júlio Martins, curador

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