CORPO RASGADO EM ESTADO DE CÉU ABERTO

LUANA VITRA

04/SET — 09/OUT 2019

19h às 22:30h
Horário de funcionamento:
Seg a Sex: 10h às 18:30h
Sáb: 10h às 14h

Luana Vitra – Corpo rasgado em estado de céu aberto

por Rachel Cecília de Oliveira

Longe de trazer uma visão idílica do que entendemos por paisagem, Luana Vitra evoca o cenário de muitas das cidades brasileiras contemporâneas, espaços onde as noções tradicionais de natureza e cultura carecem de sentido e o que compõe o enquadramento cotidiano são os vestígios de um mundo manipulado à exaustão pelo ser humano. Apesar do caráter trágico que uma descrição como essa aponta, os trabalhos de Luana são mais que testemunhas do cataclismo chamado Antropoceno. Justamente por se referirem a essa era geológica conformada pela ação humana, não podemos deixar de vislumbrar a dimensão do afeto que estabelecemos com o entorno, independentemente de qual ele seja. Afeto esse construído pelo hábito, mas também pelas vivências, pelas relações estabelecidas nele e com ele. É essa aparente contradição que os trabalhos descortinam.

Luana ressignifica o resto, o descarte, o inacabado, cria imagens a partir do que ainda não é ruína. No entanto, os despojos escolhidos por ela não são como os “fragmentos de civilizações antigas” ou “resquícios de monumentos”. São restos de nós mesmos, resíduos da nossa vida cotidiana, os quais estampam a paisagem que configura nosso dia a dia. Portanto, ela faz imagens com o que ainda não se foi, porque ainda não é passado. As paisagens de Luana ressaltam a delicadeza do descarte, a riqueza daquilo que não damos valor e a importância que isso tem em nossas vidas. Ao retirar a coisa já sem função de seu primeiro registro de atuação, ela traz à tona a beleza e a tragédia do que sobra. Nos trabalhos de Luana fragmentos formam composições que inadvertidamente poderiam ser associadas ao minimalismo. Mas essa associação seria equivocada, pois as formas e os materiais industriais não estão aqui para exaltar suas qualidades plásticas e físicas. Eles são vestígios, sintomas do equívoco messiânico e explorador chamado sociedade ocidental. Essa transforma tudo e todos em testemunhas de sua atuação, ao configurar vidas e afetos em torno de seus destroços. Assim como os viajantes recortavam imagens paradisíacas do mundo novo, os trabalhos aqui apresentados transformam os rejeitos em ruínas ao fazer deles enquadramentos do mundo atual.

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