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Toda tentativa é um fracasso

 

Partindo do pressuposto de que toda tentativa é um fracasso,  Alice Ricci é uma artista que o faz com excelência. Diferente do que se possa soar em um primeiro instante, o que se tem é o entendimento do fracasso por outra perspectiva que não aquela que remete a valores pré-concebidos em sua dicotomia. Não é sobre abordar significados que se detêm aos conceitos de “bom e mau”, mas sim em desprender-se de metas liberais e julgamentos subjacentes ou positivistas. É perceber a tentativa desde sua potência experimental, sem a imposição da assertividade, do sucesso, da conquista, da vitória e tampouco da derrota, do desbarato, da ruína e da perda.

 

Pois, uma vez imposto o pensamento contemporâneo neoliberal ocidental que estimula o sucesso como comportamento social, a experiência, o processo e a experimentação deixam de ser importantes mediante o resultado a ser atingido. Todavia, o oposto permite que a eminencia do gesto presente na tentativa aconteça tantas vezes quanto forem necessárias, até se consolidar da maneira mais contundente possível. Neste sentido, fracassar é uma das bases fundamentais para a construção de um pensamento experimental, visto que o fracasso invalida a perspectiva do resultado como sucesso e toda a carga subjacente para que ele ocorra.

 

Sob essa premissa, de um pensamento e atitude experimental em subverter a lógica do sucesso segundo os conceitos neoliberais, que a exposição apresenta uma série de trabalhos que discorrem sobre a ideia do fracasso através do jogo. São obras que tem o ato de jogar como verbo em tentativa: jogar constantemente sem a necessidade de nada além do próprio gesto em si, anulando qualquer probabilidade de ganhar ou perder. Isto é, o jogo como proposição de uma atividade sem objetivo final; um processo prazeroso e lúdico que não acontece por obrigação, dever moral ou necessidade física. A fruição deste enquanto tentativa e nada mais.

 

O jogo de Alice Ricci, por sua vez, possui regras subvertidas. Páginas de uma revista passatempo, por exemplo, tem suas letras preenchidas e desenhadas segundo formas geométricas criadas pela artista. Cria-se um código visual construído através de uma tradução gráfica do conteúdo imagético presente na revista e não dos exercícios sugeridos por essa. Trata-se do jogo como proposição que reinventa e perpassa qualquer limite ou norma imposta. Essa é a liberdade que se encontra no processo artístico, partindo do princípio básico de burlar constantemente os sistemas regidos por uma lógica funcional.

 

Além de transgredir regras, a artista mantem a essência fundamental de qualquer jogo, ou seja, disfrutar a ocasião. Quase que em contradição, é possível dizer que para ela trabalhar é sinônimo de ócio. Pois seu processo artístico rompe com qualquer coerência que não esteja de acordo com o trabalho de arte para além da ideia de passar o tempo. É com essa leveza e subversão que ela atua, fazendo com que sua figura remeta aquela de uma trabalhadora aposentada, que disfruta de sua inatividade laboral sentada numa cadeira de balanço, com uma caneta e uma revista passatempo nas mãos. Neste sentido, Alice Ricci produz em oposição ao ideal de meritocracia, uma vez que questiona a qualidade e a capacidade do trabalho correlacionadas ao esforço. Sua criação se dá através da perspectiva do ócio em encontro a processos artísticos que rompem com valores liberais.

 

Desta forma, o tempo é uma vertente essencial para a construção de sua obra, uma vez que a temporalidade nela presente é referência ativa do processo, da experiência, da vivencia e da investigação. Por essas e outras nuances, sua produção artística joga dentro das variantes  – caça-palavras, liga números, liga pontos, palavra cruzadas e blocos de montar – a infinidade de uma mesma ação a ser replicada dentro da possibilidade de passar o tempo.

 

Trata-se de uma obra que celebra a poesia visual e caminha pelo mesmo universo de artistas como Augusto de Campos, Joan Brossa, Mira Schendel, Regina Silveira e Ridyas. Como se Alice Ricci pertencesse simbolicamente a essa família, uma vez que ela também joga com elementos simbólicos da literatura e das artes plásticas. Compartilhando particularidades dessa genealogia artística, sua produção se comporta – entre outras ocorrências – como um elogio as gerações antecedentes, sempre com respeito, cuidado e admiração. Atitude que, por sua vez, deve ser enaltecida.

 

Com essa postura madura e consciente, a produção de Alice Ricci vai do bidimensional ao tridimensional, mantendo sempre a qualidade estética em ambas espacialidades. A impecabilidade plástica com que a artista apresenta sua obra reforça, ainda mais, sua capacidade de trazer para o plano físico seus pensamentos. Existe um refinamento em sua comunicação visual, na maneira com que os jogos são elaborados, como, por exemplo no jogo terremoto, cujos blocos são revestidos por espelhos tal qual as torres dos edifícios que se encontram nos centros comerciais urbanos. Uma peça que remete ao ícone de uma arquitetura contemporânea neoliberal, prestes a desmoronar, reerguer-se e assim sucessivamente.

 

Sem mais, essa é uma exposição que joga com algumas problemáticas da atualidade, contribuindo poeticamente para uma reflexão – desde outra perspectiva – sobre os conceitos de fracasso, tempo e trabalho. Com a sabedoria de quem diz: passar o tempo, passá-lo e nada mais.

 

 

Paula Borghi

Fevereiro, 2019

 

Exposição: “Toda tentativa é um fracasso”

Aberto ao público até 20/04/2019

Seg a Sex: 10h as 18:30h | Sáb: 10h às 14h

Local: Av. Álvares Cabral, 534, Lourdes, BH-MG

Mais informações: contato@periscopio.art.br