Num plano mais microscópico, a natureza é o que permite

estar no mundo, e, inversamente, tudo o que liga uma coisa

ao mundo faz parte da sua natureza.

EMANUELE COCCIA

 

 

 

F., Querido Fábio ou Fábio, Não sei bem por onde começar. Talvez pelo mesmo começo com que há dez anos escrevia sobre a sua exposição intitulada Nada mais. Me surpreendi ao relê-lo depois de tanto tempo porque poderia usar a mesma epígrafe e até alguns argumentos para falar sobre certos aspectos da sua produção subsequente. Poderia usá-lo, o texto, para pensar a mostra Somos todos riscadores — título que ecoa as palavras de Daniel Cohn-Bendit proferidas nos movimentos de maio de 68 na França: Somos todos indesejáveis, somos todos judeus alemães e que também reverbera um dos dizeres de Joseph Beuys: Todo mundo é um artista.

 

Depois do seu mergulho, cada vez mais profundo, em processos artísticos e pedagógicos, ou artístico-pedagógicos, em acontecimentos coletivos e colaborativos, nas teorias anarquistas, no perspectivismo ameríndio e em muitas outras práticas dedicadas a promover uma espécie de libertação ou desvinculação das subjetividades de um mundo que segue agarrado a um modo de vida normativo (e esse é precisamente o mundo da macropolítica), afirmou-se e adensou-se, nos seus projetos, a atenção ao pequeno, ao marginal, ao ínfimo, ao comum.

 

Ficou daquele tempo distante a imbricação frequente da figuração com a geometria, que, como os seus desenhos atuais tão bem demonstram, são categorias fluidas, e se as cremos estanques é apenas situando-as em plano ideal. Ficaram do calor daquele verão o viajante, o coletor, o caráter fragmentar, ficou a utopia — e esta, cada dia mais presente e real, não como o inatingível horizonte, mas como procedimento ou estratégia de recusa à eficácia, substantivo tão valoroso para aquilo que Suely chama de cafetinagem capitalística da arte. Durante esses dez anos em que caminhamos juntos, não sem tropeços, acompanhei a sua luta contra esse estado de coisas.

 

Acompanhei o desfile de bandeiras, algumas sessões de cabo de guerra, as playlists, a rampa rosa de skate, a breve coleção de insultos, um bloco de carnaval, a palavra dos injustiçados ou em favor deles estampadas nas blackflags.  Segui a distância,  às vezes querendo estar mais perto, às vezes mais longe ainda, as sessões de escuta e muitos outros processos.  Seja como for, durante esse período e mesmo antes, o desenho sempre foi uma ferramenta da qual você lançou mão para formular ideias, anotar, planejar ações, espaços, situações e encontros.  Mesmo sob o peso que fez você erguer as bandeiras negras e ainda que esse campo escuro que se abriu dividisse o espaço com o verde das estampas vegetais ou o vermelho das primeiras bandeiras havia muito dobradas, o negro — apesar de ser, a rigor, um valor — tornou-se o campo de cor dominante dos seus últimos trabalhos.

 

Contudo, em seus cadernos que eu tanto amo e não me canso de percorrer, mesmo quando você está ausente, as cores continuam a cintilar atrevidas nas estampas, nas flores, nas folhas, nas máscaras, nos vulcões e nos meteoros riscados sobre os papéis que agora se desprendem alegres da lombada que lhes dava ordem e voam livres em direção ao espaço, inaugurando outro tempo.

Lais Myrrha, abril de 2019.

 

Cf. texto de Suely Rolnik in Arte, censura, liberdade: reflexões à luz do presente. Org. Luisa Duarte. Editora 1

Cobogó: Rio de Janeiro, 2018.

 

Serviço

Exposições: “Somos todos riscadores” –Fabio Tremonte

Abertura: 04/05/2019 (sábado) – 11h às 17h

Horário de funcionamento: Seg a Sex: 11h às 17:00h | sáb: 10h às 14h

Av. Álvares Cabral, 534, Lourdes, BH – MG.

Aberta ao público

Período expositivo: de 04 de maio a 01 de junho