Porão – o novo espaço expositivo da Periscópio Arte Contemporânea – abre as portas apresentando a mostra Plano e Risco, do artista mineiro Eduardo Hargreaves.

Na mostra, que apresenta uma seleção diversa dos trabalhos construídos pelo artista, somos tomados pela evidência de um lugar que se projeta sobre a noção de uma fronteira imprecisa, em um espaço limítrofe entre o conhecido e o desconhecido, entre a segurança e a indeterminação.

Através de caminhos distintos, entre espaços vazios, desconhecidos e fragmentados presentes nas obras, podemos nos encontrar em um complexo de imagens, um espaço próprio da incerteza, da indeterminação e da suspensão da razão, que se abre em direção ao outro, ao mundo, à história e ao desconhecido. A realização das paisagens, que dominam o universo imagético na obra do artista, envolvem uma grande carga de incertezas e provisoriedades geradas pelas características próprias dos materiais escolhidos e pelas técnicas e processos utilizados.

Hargreaves explora diferentes caminhos através dos trabalhos, que se constroem e se relacionam exaustivamente com questionamentos em torno da elaboração de um lugar. De um lado, se apresentam imagens que aproximam e tencionam o desenho e a pintura, através da elaboração e composição de imagens abstratas – presentes nas séries Paisagens Pensas, Paisagens Rotas, Viagem ao outro lado da noite e Passagem – que apontam para a existência de uma estrutura não definida ou que perdeu um sentido claro, como marcas apagadas pelo tempo. Através de marcos – no real, na memória e na imaginação –, o espaço se organiza.

Em Paisagens Pensas, uma série de desenhos delicados mesclam a densidade do carvão à transparência da parafina, criando uma dimensão semitransparente, que aponta um outro lado sempre visível e obscuro, ao mesmo tempo. A montagem suspensa, em sanduíche acrílico, busca evidenciar uma conversa com os Objetos Gráficos, de Mira Schendel.

De outro lado, guiado pela noção da configuração do território mitológico, propõe a elaboração da série Arcádia, composta por dezoito desenhos à carvão sobre papel que, em conjunto, criam um grid de imagens que se estruturam e se dissolvem. A partir de espaços triviais e cotidianos, evidenciam-se elementos gerais da estrutura de prédios, casas, espaços urbanos e outros elementos culturais, os quais são trabalhados pelo artista para se transformar, através de um processo de tradução, em espaços que apontam um dentro e um fora da imagem. Cada desenho remete a um lugar possível, que se interliga de certa maneira pela proximidade estética e técnica, porém mostram não estar conectados a um só espaço, mas fazem menção a um lugar distante, mitológico, ao mesmo tempo que presente e comum.

Entre estes dois grupos, obras como As quatro fases do desenho e a série Decretos de Regulamentação, assim como os objetos de Desenhos Topológicos e Esses pedaços de ti, América, criam uma espécie de ponte que atravessa as fronteiras entre as imagens abstratas e a representação. As obras se tangenciam na escolha e no uso dos materiais, em suas características técnicas e plásticas, assim como na aproximação entre as imagens e a presença de lugares reais, através do uso de mapas e imagens de arquivo. Os trabalhos também se perpassam através das múltiplas leituras e dos diversos entendimentos que os mapas oferecem ao olhar e às possibilidades de sua reconstrução e ressignificação. Da mesma maneira, as fronteiras traçadas nos mapas, fragmentos textuais e instruções cartográficas e topográficas, se espelham nas manchas de óleo, carvão, pigmentos e nas mudanças de estado físico da parafina – ao derreter, espalhar e enrijecer.

Em suas mais recentes exposições, as individuais Paisagens Rotas –­ no Centro Cultural da UFSJ (2018) – e Cartas para um lugar – premiado pelo programa Mostras BDMG e apresentada na Galeria de Arte BDMG Cultural (2018) –, Hargreaves parece nos questionar, através das imagens, sobre as formas e as relações como a memória física do terreno somam-se às memórias individuais e coletivas, seja através da construção de imagens – desenhos – signos, que se interligam, seja nas dimensões da paisagem natural e na presença da interferência humana nessa paisagem.

Com a ficcionalização de lugares e territórios, em constante construção e transformação, os desenhos se abrem como vetores para a reflexão sobre o espaço geográfico, histórico e político no qual estamos inseridos. Apontam para a possibilidade de se pensar a construção de um imaginário próprio, inferindo importância na formulação do fazer imagem que se dá, tanto em relação ao ato de desenhar, quanto no espaço aberto pela visão e elaboração que ocorrem através do olhar do observador.

Na mostra Plano e Risco, a obra de Eduardo Hargreaves se une neste novo projeto da Periscópio ao estabelecer o espaço Porão como um lugar de vivências e experiências estéticas, onde nos é feito um convite à navegação e à travessia de novos itinerários.

 

 

Serviço

Exposição: “ Plano e Risco” – Eduardo Hargreaves

Abertura: 16/03/2019 (sábado) – 13h às 17h

Período: até 20/04/2019 – Seg a Sex: 10h às 18:30h | sáb: 10h às 14h

Av. Álvares Cabral, 534, Lourdes, BH – MG.

Aberta ao público