Exposição - “Como ativar os estilhaços da história pela linguagem: re-alfabetização política urgente”

0_ Aqui, neste porão, podemos pactuar que nada mais será como antes. Nos minutos que passaremos percorrendo o subsolo da Galeria, agarraremos com todos os dedos a coluna do tempo, sentindo sua textura, sua temperatura, enquanto dele tomaremos distância, dando um passo para fora, inclinando para trás o pescoço, afastando nossa cabeça de seu raio de alcance, dissociando nossa cognição da cegueira que vem com o brilho espetacular dos adventos. Assim, poderemos manter os olhos fixos nas cores mais escuras do agora, encarando nos olhos sua escuridão. Voltemo-nos para a origem, questionando radicalmente suas consequências em busca de uma luz que ainda não se pode ver, mas que sabemos que existe e que está totalmente dirigida para nós. Dilataremos as horas, os anos, as décadas. Enxergaremos a história do Brasil não em linha reta, mas como um redemoinho que engole e sopra, em contínuos e violentos círculos, as ideologias e os massacres, as paixões e os projetos, os genocídios e as resistências. De frente para trás e de trás para frente, para cima, para baixo e por todas as direções, deixaremos em suspenso as certezas, os caminhos conhecidos. Nos permitiremos experimentar outras formas de pensar e nos educar. É claro, talvez isso seja pedir demais, forçar a barra. Ainda mais assim, de bate-pronto, por meio de um simples texto, numa exposição, num contexto tão específico quanto o de uma galeria de arte. Talvez já não dê para fazer mais nada mesmo, muito menos aqui. E não dá para achar que um gesto artístico vai dar conta de propor uma situação à altura do que nos cerca. No entanto, temos que lembrar que há ideias que podem ser mais perigosas que a vida, e que a linguagem ainda pode ter serventia para alguma coisa. De mais a mais, se chegamos até este ponto, vale a pena tentar.

1_Sob a gravidade da hora, diante de um acúmulo terrível de técnicas e empreendimentos, negociatas e notícias, discursos públicos e conversas vazadas, tudo aqui é uma reação à quebra institucional completa, à fratura na cervical do pacto político, ao golpe branco, às repressões e aos homicídios em massa que vieram a reboque. Ao impeachment da Presidenta, ao grande acordo nacional — com a família brasileira, o Supremo, a Força-Tarefa, o Exército, a porra toda — orquestrado pelos mesmos de sempre. Em sentido mais amplo, uma reação aos tecidos sociopolíticos necrosados, aos interesses escusos; à voracidade do capital financeiro irrefreável em sua simbiose com a internet, circulando sem fronteiras numa inconcebível escala planetária; exercitando sua capacidade de regulamentação total, que é muito maior do que a de qualquer acordo prévio, lei, costume ou projeto de nação; se tornando a representação primordial de uma sociedade global. Se tamanha flexibilidade e capacidade de transmutação e adaptação já foram vistos como sinais de abertura, democracia e descentralização, hoje, na era das abstrações, das nuvens de informação, da automação conduzida por algoritmos, da troca virtual de commodities em microssegundos, já se evidenciam como atributos dos sistemas de controle operados por agências de inteligência do Estado e uma meia-dúzia de megacorporações. O cenário da pós-democracia está dado: crises de representação abissais e autoritarismos mais complexos, atrozes e abrangentes que nunca.

Eis que se aproxima um próximo paradigma… Mas pra quando?! Entre o velho que não morre e o novo que não nasce,  surge o contraste por onde resvalam os monstros.  No meio das convulsões públicas e dos transes pessoais, catamos os escombros — dos grandes desabamentos de terra às explosões da linguagem no noticiário cotidiano.  É tudo urgente.  E o que sobra para quem fica? Quem consegue fazer o que? Aqui está uma provocação para pensarmos e sentirmos juntos o colapso iminente das estruturas por onde passam os códigos da comunicação.  Uma aposta, em pequena escala, num programa pedagógico de médio e longo prazo que se atém ao princípio, ao começo da letra, ao reset do aparelho cognitivo. Um programa baseado num jogo linguístico que torna visível o avesso do absurdo transmitido em todo canto por tantas mídias, desvelando o processo histórico macabro puxado por projetos de poder ultra articulados.

2_ Nesta pequena escola subterrânea, sobre o mobiliário que corre paralelo às paredes, estão as “Almofadas pedagógicas”, dispositivos de difusão de conhecimento dentro de um projeto contínuo que busca se espalhar, indefinidamente, por diferentes espaços. Com elas, Traplev cria por conta própria um índice de movimentos, de todos os tempos, ligados à justiça social no Brasil.  De personalidades importantes às organizações políticas, das causas sociais às práticas artísticas, apresenta-se uma constelação de ações de resistência cuja radicalidade do pensamento e disposição pragmática faz lampejar a força universal que move as lutas do povo, os ensejos que podem vir à tona a qualquer momento, em qualquer lugar.  Fica o convite para sentar, ler, se acolchoar, se abraçar aos textos, sentir o tecido e o significado dessas narrativas.  Para usá-las livremente, como convir, ligando novas chaves de entendimento, enchendo o peito e animando a alma.

Neste playground filosófico para reflexões críticas cortantes, o artista também reúne algumas das muitas peças do “Alfabeto flúor”, em que recortes de textos críticos de diversos autores, e de fontes como verbetes da Wikipédia e excertos da Constituição Federal de 1988, são justapostos por letras ou números aleatórios, formando um conjunto visual de marcas gráficas forjadas no calor da ocasião.  E algumas edições da compilação “Crise de representação”, resultante de pinturas gestuais feitas sobre prints de manchetes, deflagrando estratégias semióticas e os dribles de sentido operados pelos grandes veículos de comunicação em suas cruzadas seletivas e indecorosas. Dispostas como marcas nas paredes do cômodo, fazem emergir a estética da apropriação do estilhaço, da propulsão do didático, da imaginação espontânea.

3_ Aqui está um circuito, um plano ideal, que só existe em potência, fundado em nada mais que hipóteses e pensamentos errantes, para elaborarmos novas maneiras de nos afetarmos, de nos convocarmos, nos organizarmos, nos manifestarmos; para nos deixarmos atravessar por uma multidão de histórias, visões, leituras, diálogos, centros e protagonismos; para inventarmos novos sentidos para nossos corpos. Um gatilho para nos questionarmos a respeito do que nos é intolerável.  E a partir do minuto seguinte, decidirmos o que teremos que fazer para influir, de uma vez por todas, no presente.

Germano Dushá

Junho  de  2019

 

Serviço

Exposições abertas ao público:

“Como ativar os estilhaços da história pela linguagem: re-alfabetização política urgente” – Traplev

Abertura: 15/06/2019 (sábado) – 11h às 17h

Horário de funcionamento: Seg a Sex: 11h às 17:00h | Sáb: 10h às 14h

Av. Álvares Cabral, 534, Lourdes, BH – MG.

Período: 15 de junho a 27  de julho