Um Piano na Selva

No dia 11/03/17, a Galeria Periscópio Arte Contemporânea, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte (MG), abre a exposição inédita Um Piano na Selva, com curadoria de Germano Dushá. Obras de Bruno, Lais Myrrha, Paula Sampaio, Pedro Motta, Rafael RG, Renata De Bonis, Ricardo Carioba, Rodrigo Palazzo, Daniel Steegman Mangrané, Daniel de Paula, Deyson Gilbert, Fábio Tremonte, Janaina Wagner Braga e Maria Thereza Alvez compõem a exposição. Ao todo, são cerca de 25 obras, entre elas fotografias, esculturas, vídeo e instalações.

O processo para a criação da exposição tem como ponto de disparo um piano repousando na mata fechada, uma possível imagem-síntese do filme Fitzcarraldo, do alemão Werner Herzog, lançado em 1982. Para financiar seu projeto de construir uma ópera na Floresta Amazônica peruana, o personagem do longa-metragem, um alemão empreendedor, se esgueira nos meandros dos barões de borracha e no uso de mão de obra indígena, arriscando-se a atravessar um barco por cima de uma montanha.

A mostra pretende explorar os desdobramentos literários, filosóficos e antropológicos da imagem ou de “uma ideia fora do lugar”. Todo o núcleo conceitual vem dos reflexos possíveis que partem do exercício de se imaginar o piano na selva e de tomar como ponto de disparo o filme de Werner, porém, Dushá afirma que a ideia não é fazer uma mostra ao redor do longa como obra, o celebrando ou mesmo o esmiuçando, mas sim indo atrás das mesmas questões que ele trata. “Não existe essa conexão literal com o filme. Não existe um desenho de um personagem, uma pintura de uma cena, apesar do filme estar, de alguma, maneira relacionado ao processo de criação de vários trabalhos – tanto alguns que já existiam, quanto alguns pensados especificamente para projeto. Da mesma maneira, nem sempre é fácil identificar o que seria o piano, o que seria a selva. E quem se impõe ao que, por exemplo”.

De acordo com Dushá, outras vezes a imagem-síntese é usada apenas como simples analogia a outros encontros. “A vontade era tratar do sonho desvairado, a busca, o empreendimento; e os absurdos, delírios, custos e efeitos produzidos pelo encontro de diferentes vetores e da natureza de encontros entre entes antagônicos”.

Pesquisas e estratégias heterogêneas impulsionaram noções sobre a potência do encontro ao assumirem a complexidade da reunião, o que tornou possível mirar na capacidade de produzir conexões entre distintas formas de pensar. “A mostra inclina-se, assim, sobre os absurdos e assombros concentrados no interior de conflitos e convergências e sobre os múltiplos sentidos e efeitos que nascem de cada nova junção, seja por colisão ou comunhão, trombada ou mútua deliberação”.

O critério de seleção da curadoria surgiu de um grupo de nove artistas com os quais Dushá tem proximidade e diálogo corrente devido a projetos anteriores. “São pessoas e pesquisas com os quais convivo no meu cotidiano. Outros surgiram a partir de pontos de uma pesquisa contínua. Quando um projeto começa a ganhar corpo, é natural que certos nomes que se relacionam com os conceitos e objetivos da mostra apareçam. E alguns outros surgem da conversa sobre o projeto”.

Uma das obras que estarão na galeria é uma imagem da série “Naufrágio Calado” de Pedro Motta, composta por imagens em grande formato. A partir da manipulação digital, o artista coloca em confronto direto e visceral elementos naturais potentes atravessados pelo rastro humano. No caso, são barcos que surgem encalhados em paisagens tomadas por erosões de grandes dimensões.

A fotografia “Rodovia Transamazônica – Medicilândia (PA)” de 1994, da artista Paula Sampaio, faz parte de um projeto que vem sendo desenvolvido desde 1990, que tem como foco o cotidiano de migrantes que vivem às margens de duas grandes estradas construídas na Amazônia a partir da década de 50: a Transamazônica e a Belém-Brasília. Nesse trabalho, além da documentação fotográfica, homens e mulheres contam sua história, por meio de memórias orais(entrevistas), iconografias, cartas e imagens de família. No caso do trabalho da mostra, a fotografia em preto e branco traz uma combinação entre documentação e registro sensível, que supera em muito a materialidade dos fatos. Nela se vê a rodovia Transamazônica cortar a selva, como um rompante prateado, em movimento, em meio a mata negra.

Já um dos trabalhos do Fábio Tremonte, “A terra é o corpo”, é um círculo de madeira com terra vegetal, uma instalação/ação que convida o público a tirar os sapatos e pisar na terra no meio da galeria.

Um dos trabalhos do Ricardo Carioba é uma instalação audiovisual site-specific, no porão da galeria. Trata-se de um espaço completamente escuro, em que um ponto luminoso responde aos impulsos sonoros de uma música. Como se fosse uma representação, visual e sensorial, do conceito da mostra.

Dushá relata que também há, em certos aspectos da exposição, um posicionamento crítico em relação às mazelas oriundas de um processo de dominação genocida, que atropela inúmeros povos em nome de certa ideia de progresso. Há o interesse na materialidade dos fatos, e também nos discursos que conduzem até hoje esse processo.

“As obras abordam pontos de contato do erudito com o selvagem; da extração com a floresta; do pensamento acadêmico com o esquentar dos corpos; do empreendimento com o campo aberto”, reforça Dushá.

A exposição Um Piano na Selva fica em cartaz até o dia 22 de abril na Galeria Periscópio Arte Contemporânea, na Avenida Álvares Cabral, 534, Lourdes, Belo Horizonte, Minas Gerais.

Curadoria: Germano Dushá]

 

 

Local:

Periscópio Arte Contemporânea

Av. Álvares Cabral, 534 – Lourdes.

Belo Horizonte – MG

 

Visitação: De 11/03 a 13/05

Horários: segunda à sexta: 10h às 18:30

Sábado: 10h às 14h.

 

Crédito das fotos: Eduardo Eckenfels