Coletiva

Sem título (Do impossível ao porvir)

 Abrir uma fenda no mundo

Marina Câmara e João Guilherme Dayrell

 

A exposição Sem título (Do impossível ao porvir) é composta por dois grupos de trabalhos mais ou menos interpenetráveis. O primeiro reúne obras nas quais o impossível se manifesta de diversas maneiras, seja na figura do absurdo, do insólito, do não usual ou do improvável, como as pinturas de Henrique Detomi, os trabalhos de Fábio Tremonte, de Marcelo Drummond e de Lucas Dupin. Já no segundo teríamos os desenhos de Letícia Grandinetti, as pinturas de José Lara, os trabalhos de Marc Davi e as aquarelas, grafite e tinta tipográfica sobre papel de Marcio Diegues, nos quais figuram imagens sem referências diretas e fechadas. Sugerem formas que tendem ao irreconhecível – ainda que alguns direcionamentos nos sejam propostos pelos seus títulos – e que, ao mesmo tempo, não se reduzem à abstração.

 

Trata-se, de certa maneira, de um percurso que vai da transgressão à ausência de medida, da confrontação da norma dada a uma zona de excepcionalidade na qual as imagens tocam o imensurável, o ilegível, e, justamente por isso, abrem-se a possibilidades variadas de nós, enquanto espectadores, darmos consistência a elas. Assim, as produções do grupo que compõem O impossível frustram nossas expectativas ao emperrar a continuidade das ações que esperaríamos se desdobrar a partir de um determinado arranjo, suspendendo, finalmente, a normalidade. Enquanto, por outro lado, a poética dos trabalhos que nos sugere a ideia do Porvir residiria justamente no próprio estado de suspensão, já que estes trabalhos pousam levemente sobre a fenda que os primeiros angariam através de um confronto, de um corte.

 

Na cultura ocidental, a conformidade da arte com o possível e/ou desejável – de onde a ideia de verossimilhança, por exemplo – foi, em muitos momentos, uma obrigação. Isto significa, ao contrário do que se pode imaginar, a atribuição de uma função normativa à arte, pois, tendo de representar o que deve ser – e daí o desejável, o possível – e livrando-se, para tanto, de tudo aquilo tido como absurdo, irracional, não razoável e, logo, indicando imagens, pensamentos, hábitos e comportamentos ideais, ela se torna um instrumento para manutenção da norma vigente e da unidade do corpo social.

 

Diversas foram as estratégias criadas por artistas, ao longo da história, para libertarem suas produções de modelos pré-estabelecidos. A autorreferência, a despersonalização e a repetição foram alguns dos recursos particularmente explorados sobretudo no início do século XX no intuito de, entre outras coisas, tornar manifesto o fato de que a arte vinha sendo refém dos próprios cânones, além de instrumento de propaganda das ideologias dominantes. Valendo-se de disciplinas artísticas específicas, como a escultura e a pintura, passou-se a deixar cada vez mais clara a insubmissão da arte à função documental e/ou normativa, rompendo-se, finalmente, especialmente nos casos mais radicais, com qualquer encadeamento prévio que não fosse aquele posto em moto por cada observador (ou participante) no ato de sua experiência estética.

 

A despeito do crítico momento político no qual estamos inseridos, ou talvez justamente por ele nos devorar diariamente, os trabalhos aqui expostos parecem propor a reconsideração de questões no âmbito de nosso próprio microcosmo. Permitem que notemos como nós mesmos esperamos já sempre algo das situações e, ao fazê-lo, nos colocam na queda vertiginosa em direção ao aberto. Sugerem por fim, quem sabe, que nenhuma revolução pode prescindir daquela individual e íntima.

 

Emperrando a engrenagem das significações, em ambos os casos, essas obras instauram a possibilidade de serem aquilo que quisermos, se quisermos. Decretam, como há muito já foi afirmado, que o poder de ativar ou não a “máquina de significar que toda obra é” não cabe, senão, a nós mesmos. Pois confrontar os hábitos e modos dominantes de ver e compreender o mundo, ou seja, a ideia de normalidade vigente para, posteriormente, colocar-nos diante de imagens abertas, dando espaço para que outras compreensões possam advir, significa, em última instância, entrar em atrito com a cultura, abrindo-lhe uma fenda, para, a partir de formas embrionárias, impulsionar a imaginação de corpos e mundos porvir e, por que não, de naturezas.

Local:

Periscópio Arte Contemporânea

Av. Álvares Cabral, 534 – Lourdes.

Belo Horizonte – MG

 

Abertura dia 01 de julho (sábado) de 11:00 às 17:00

Exposição até 05 de agosto de 2017.

Horários: segunda à sexta: 10h às 18:30

Sábado: 10h às 14h.

 

*crédito das fotos: Eduardo Eckenfels