``República da Cobra`` - Randolpho Lamonier e Thiago Martins de Melo

 O sonho é o único direito que não se pode proibir.

                                                                                                              — Glauber Rocha

Violência e imaginação

Há, por todo canto, os efeitos da razão. Uma razão que tolhe como se sente e domina como se pensa. Conservadora, normativa e desenvolvimentista, que nos dá, assim, de bate pronto e embalado para viagem, ideologia e método, discurso e processo. É algo que vem se arrastando de outros séculos, de outros continentes, de climas muito mais frios, que nos chegou com as caravelas que vieram de lá para cá, marcada na testa de cada homem a bordo. Um jeito de orientar a maneira como entendemos os fenômenos do mundo e, sobretudo, de como nos enxergamos neste mundo. Se manifesta num racionalismo arbitrário e enviesado, que não nos permite intuir e abraçar de vez o que há de inexplicável na existência. É o que impede que possamos ser possuídos pela ideia, que não nos deixa experimentá-la até o limite. Que nos afasta da experiência mística, do astral, que pode surgir em cada esquina. Essa razão é o que nos faz usar terno e gravata nos trópicos ao passo que rebaixa e reprime o sincretismo, o empirismo popular. É o que funda a ideia de estado-nação, mas jamais dá conta de criar comunidades reais, baseadas numa economia da cooperação e não da competição.

Essa razão, que quer tudo sempre de um jeito só, opera uma violência contra a imaginação, contra as formas de vida e a capacidade que temos de sempre reconfigurar nossa existência. Produz medo, para que nos protejamos uns dos outros. Produz crises, para as quais sempre virá com as mesmas respostas evasivas, gerindo um ciclo de catástrofes contínuas. E aí, não raro, vira do avesso, numa irracionalidade desmedida, combustão do autoritarismo, que logo descamba para um ódio cego, que rasteja, destilando veneno no dente, acusando a tudo e a todos, apenas para esconder sua própria natureza vil.

Por que não, então, falar de uma anti-razão, de uma desrazão?! Se a razão trabalha para oprimir e repreender, a anti-razão, por sua vez, é liberadora e transformadora. É o que pode se opor à violência sistêmica, e mesmo nos embates violentos, afirmar, acima de qualquer outra coisa, o amor incondicional e inesgotável entre aqueles que se encontram debaixo do mesmo céu. Diante da realidade absurda que nos cerca, temos mesmo é que estar tomados, dos pés às cabeças, implicados de corpo inteiro. Afinal, viver é jogo de corpo, sempre a favor do que nos é urgente transformar e sempre contra o que já nos é intolerável. E o jogo é sempre agora, na presença e não no projeto. Só assim para sentir o fio da vida, a tremulação etérea que a qualquer instante pode nos acometer. Só assim é possível imaginar, para então, conceber como queremos, daqui em diante, seguir vivendo.

Randolpho Lamonier

Quem desperta de um sonho agitado experimenta sempre a consciência suspensa, como num balanço instável. Enquanto vamos voltando a nos localizar no espaço e no tempo e a perceber nossos membros, também é possível experimentar os efeitos das visões que nos acometeram quando dormíamos: as livres associações, os enredos improváveis, os encontros impossíveis. Nesse estado mental, medos e desejos se mordem, memórias pessoais e episódios históricos se costuram, e reelaboramos o mundo de mil maneiras, sentindo no corpo como seria se fosse.

Talvez só seja possível ser contemporâneo à nossa época, ou seja, pertencer verdadeiramente ao nosso tempo, quando experimentamos algo semelhante ao segundo imediato após o sonho. É quando experimentamos uma imaterialidade concreta que, ao mesmo tempo em que afirma uma irrealidade, reproduz no corpo sua materialidade, exercendo nele influência direta. A imaterialidade dos sonhos intervém sobre a materialidade da vida. Neles somos livres para nos desconectarmos radicalmente das exigências e normas mundanas. Nele somos capazes de processar os fenômenos correntes de todas as formas possíveis, observando suas sombras e escuridões, e os fechos de luz que parecem sempre correr de nós. Só aí somos capazes de pensar criticamente, quando flexionamos os limites da realidade.

O trabalho de Randolpho Lamonier irrompe na risca que cruza o real com devaneios, o corriqueiro com o absurdo, o pessoal com o nacional, o micro com o macro, o individual com o coletivo, o pertencimento com a repulsa. Objetos encontrados, restos de tecido e incursões textuais criam jogos sintático-semânticos que não se esgotam num único sentido, mas se abrem para inúmeras interpretações e reflexões. São gestos enfáticos, que enfrentam frontalmente os absurdos cotidianos, as urgências que nos atravessam, denunciando o intolerável e vocalizando consternações, mas interessados sobretudo na potência dos movimentos que desafiam as regras, que resistem e reinventam maneiras de ler o mundo.

Em suas obras, signos, discursos e narrativas se combinam para nos por em contato com uma certa violência, que não oprime nem produz medo, mas nos tira do nosso campo de cognição, de reconhecimento familiar, para nos lançar no desconhecido, onde as paisagens e as formas ainda não são por completo. Põem em cheque o que nos amarra ao senso comum para deixar furar nosso saco de certezas e verdades. Cada faixa ou objeto surge em toda sua materialidade, mas também como possibilidade de criar imagens a altura das angústias e dos anseios cotidianos. Numa época em que amar é proibido, um rompante liberador nos lembra que viver é sempre perigoso, mas onde pulsa a vida sempre haverá quem grite, quem se coloque na contramão.

Thiago Martins de Melo  

O sol arde nas costas do cavalo. O grito pulsa na garganta. Desembainham-se espadas. Gente nasce, e muita gente morre – esquartejada, de tiro, de fome ou oprimida de outro jeito. Índios, quilombolas, sertanejos, entidades, bestas, políticos, cães e caveiras se encontram no vórtice quente da história, fazendo emergir e escorrer um sem número de narrativas pelas fendas nos regimes de verdade que sustentam nossas tradições. Em questão de segundos vamos da idade da pedra à Brasília, da jugular da onça aos bicos dos fuzis, dos rituais nativos aos noticiários televisivos.

As pinturas de Thiago Martins de Melo fazem um barroco próprio, anacrônico e anárquico. No lugar do chiaroscuro, cores vibrantes e camadas espessas dão luz a uma distopia tropical: surgem cenários e situações ocupadas pelo que há de mais nefasto debaixo do céu, mas também por uma energia ancestral que se faz sentir em toda luta de quem resiste. No lugar das esferas de protagonismo e da distribuição clássica de papéis, muitas vozes antes condenadas às margens revelam suas potências num coral caótico. Nessas conjunturas complexas, também não se afirmam maniqueísmos e outros binarismos, mas um maquinário histórico confuso e impiedoso. No lugar das leituras bíblicas e outros cânones ocidentais, a sabedoria popular, as práticas das selvas, dos campos e das ruas de sempre. No lugar do pensamento iluminista, se pensa também com o corpo, com o cu. Há arte e guerra, cálculo e misticismo, presságio e documentação. Elencam-se, é claro, tragédias de todas as escalas, mas que não impedem o rompante vital de formas de vida e de diversas imaginações.

Numa cosmologia colérica, de gestos fortes e paisagens intensas, o artista nos investe num inescapável senso de urgência. Ficamos diante de um momento de ultra possibilidade. Presenciamos as transformações da matéria ocorrendo no interior dos grandes massacres e também das revoluções. Mitos, tramas e enredos marcados por muitas camadas simbólicas. Entre balaclavas e cocares, capacetes e crânios, imagens do corpo, da sexualidade, de ritos religiosos e convulsões sociais são ventiladas vertiginosamente, num amontoado de anacronias…. É quando enxergamos cenas resgatadas de memórias da vida particular do artista se acotovelarem com acontecimentos públicos cravados no imaginário social do Brasil.

Cada quadro é um clarão onírico, que nos faz crer que é possível encontrar a história do mundo todo numa batalha épica, ou quando juntos tomamos banho de rio. Como os transes e as transcendências, as cosmovisões e as estratégias de jogo, que nos fazem encarar nos olhos a miséria humana, mas sempre trazem consigo a força universal e contínua que alimenta insurgências e revoluções.

Germano Dushá, novembro de 2018

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Exposição: República da Cobra

Aberto ao público até 05/01/2019

Seg a Sex: 10h as 18:30h | Sáb: 10h às 14h

Local: Av. Álvares Cabral, 534, Lourdes, BH-MG

Mais informações: contato@periscopio.art.br