Fábio Baroli - ``À Porta de casa``

 

Nascido em Uberaba, Fábio Baroli começou sua carreira em pintura em 2007, estudou Artes em Brasília, tendo vivido no Rio de Janeiro antes de voltar à terra natal, cujas paisagens, curiosamente, permaneceram habitando suas telas ao longo de mais de uma década de produção, sob o olhar da dedicada ciência que elabora por suas imagens, a “Antropomatutologia”, destinada ao convívio com matutos que povoam os interiores de várias regiões brasileiras, ao estudo pela pintura de seu ethos social e poético, seus hábitos rotineiros de trabalho e sociabilidade, suas andanças, mitologias e apaixonantes histórias.

As imagens de Baroli trazem o matuto como sujeito de uma narrativa contemporânea, o que lhe permite tanto uma entrada pela memória afetiva de sua infância e adolescência em Uberaba, tendo muitos matutos por parentes e vizinhos, quanto reinventar a paisagem do Triângulo Mineiro sob chamas, numa revolução vinda do campo brasileiro, ou imaginar manifestações com a turma da rua repercutindo as notícias vistas no noticiário da tv, reencenadas por Baroli com ironia e forte questionamento político acerca dessa paisagem interiorana que, ainda desconhecida, foi tão tipificada pelo imaginário da arte moderna, conforme as paisagens mineiras de Guignard e Inimá de Paula. A começar daí o artista politiza um tema aparentemente ameno, já que a paisagem interiorana a que dá visibilidade é um universo brasileiro amplamente ignorado, preconceituosamente tido por ultrapassado e fadado a deixar de existir em breve tendo em vista a aceleração imposta pelas dinâmicas urbanas. Assim, nada inocente do ponto de vista político na escolha da paisagem – lugar, portanto, de resistência, permeada sempre de soluções, apropriações, respostas e afirmações destinadas ao tempo presente, de convulsão política, eleições acirradas e novos coronelismos.

O matuto não é visto por seu exotismo, como talvez Almeida Jr em sua pintura regionalista em fins de século XIX o tenha abordado, ou por seu puro antagonismo à vida urbana predominante e seus valores modernos, mas protagoniza com sua própria voz o seu próprio universo nas pinturas de Baroli, com ressonâncias a questões contemporâneas, mas absolutamente singular em suas reações, convicções e criações. “Encontro aí um sentimento forte de pertencimento”, declara o pintor sobre a série de trabalhos “Meu matuto predileto”, que faz pensar que talvez haja na exemplaridade das respostas da vida do campo àquilo que se passa na cultura urbana moderna algo que ligue a pesquisa de Fábio Baroli a pintores como Camille Corot e Vincent Van Gogh naquilo que pressentiram do campesinato como resguarda de algo profundamente humano diante do progresso e seus avanços tecnológicos alheios aos impactos na vida do homem comum e seu contato com a natureza.

“À porta de casa”, título da exposição, define um lugar de sociabilidade partilhada, refere-se a uma prática muito comum nos interiores brasileiros em que as pessoas colocam bancos nas calçadas em frente a suas casas convidando assim quem passar pela rua a se aproximar. No espaço público, sob a mesma hospitalidade oferecida na intimidade do interior da casa, os encontros e conversas ocorrem naturalmente e a vida se dá em sua apresentação mais crua e sem mediações. São nessas calçadas que muitas cenas de interesse para o pintor ocorrem: matutos que vagueiam por ali chegam para provar um café com broa de milho ou pão de queijo recém assados; crianças chupam laranjas sentadas no chão; cachorros e galinhas passeiam por entre os frutos da terra – bananas, frutas, doces, comidas, fumos e confidências compartilhados perto do muro; vendedores e viajantes de toda sorte trazem relatos de terras distantes. As narrativas e caminhos se multiplicam e se sobrepõem aí assim como os campos pictóricos compostos por Baroli acoplam perspectivas diversas sob o fundo bege de gesso crê, amarelado. Em sua pintura tudo é composto com precisão e delicadeza, a imagem pintada adere afetividade ao que se apresenta nas fotografias de álbum familiar, ou imagens reinventadas em realismo mágico ou simplesmente o decantar do tempo frente às fachadas de arquitetura vernacular e colorido desmanchado. Fábio Baroli nos convida a adentrar nessa geografia humana do interior brasileiro atentando para certas perversidades que se insinuam no percurso.

Júlio Martins, curador

 

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Exposição: À porta de casa – Fábio Baroli

Aberto ao público até 10/11/2018

Seg a Sex: 10h as 18:30h | Sáb: 10h às 14h

Local: Av. Álvares Cabral, 534, Lourdes, BH-MG

Mais informações: contato@periscopio.art.br

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Exposição_à_porta_de_casa_Fábio_Baroli_Periscópio

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira

  • Vista exposição "À porta de casa" - Fábio Baroli foto: Jon Silveira